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Delicatessen: humor negro apresenta facetas de uma sociedade individualista

 
Léo Rodrigues | 05/12/2007 Crítica produzida no âmbito do curso da Escola Livre de Cinema

Delicatessen é uma comédia de humor negro sobre os valores de uma sociedade onde reina a extrema calamidade. Os diretores Jeunet e Caro retratam um futuro onde o alimento se torna escasso. Clapet, o dono de um condomínio e de um açougue, monta um sistema para abater moradores de seu prédio, transformando sua carne em mercadoria pronta para preencher o prato de comida dos demais inquilinos.

O ambiente onde o filme se passa é apresentado logo no início. A fotografia, com um amarelo sombrio, nos transmite o clima do lugar e do momento: tudo é demasiado tenebroso.  Os personagens, muito bem construídos, evidenciam que o meio influencia o comportamento dos indivíduos. Todos são extremamente esquisitos, com ares de suspeitos. Além do meio, as pessoas influenciam-se o tempo todo. Paixão, medo, raiva, interesse são sentimentos que permeiam aquele universo. Os ritmos da vida de um, constantemente, definem os ritmos da vida do outro, como Jeunet e Caro irão demonstrar numa passagem belíssima em que jogam com o barulho dos objetos manipulados por cada pessoa do prédio.

É nessa realidade que os valores humanos se esfacelam. As crianças fumam sem que ninguém intervenha. O dinheiro compra a vida: quando um morador pede clemência à Clapet para que mate um vizinho no lugar de sua mãe, o dono do condomínio responde que o vizinho está em dia com os aluguéis. O detector de besteiras, engenhoca inventada por um outro morador, apita sistematicamente quando se diz “a vida é bela”.

O filme se guia pela chegada de um personagem que coloca em cheque os valores daquele ambiente: Louison, um ex-palhaço que é contratado para zelador do prédio. A inocência do novo funcionário não o permite enxergar que Clapet lhe reserva um espaço no freezer do açougue. Seu perfil contrasta com todos os demais: mesmo diante de todas as dificuldades, ele brinca, dança, faz palhaçadas, etc. Louison parece se esforçar para demonstrar a ineficiência do detector de besteiras. Apaixonado por Julie, a filha do açougueiro, ele resolve lutar contra o destino que Clapet lhe reservava.

“Ninguém é totalmente ruim. São as circunstâncias. Ou não percebem que agiram errado.” A mensagem é de Louison, mas se repete na boca de Clapet. Entretanto, o açougueiro apenas conforta o seu espírito com aquelas frases. Ele persiste na caça ao zelador e passa a contar com diversos outros moradores. Mesmo unidos em torno de um objetivo, a confusão se generaliza e deixa em oposição vários moradores. As circunstâncias provocaram uma situação onde prevalece a “guerra de todos contra todos”.

Louison e Julie, esta decididamente ao lado do zelador, conseguem escapar da caça. Eles alagam um banheiro que, quando aberto, provoca uma enxurrada no corredor, derrubando seus carrascos escada abaixo. A única mulher que se salva da enxurrada corre atrás do marido, pisando e, literalmente, passando por cima de todos os outros personagens estatelados na escada. Numa última tentativa, Clapet se vale do “australiano”, uma espécie de bumerangue, que volta na sua direção cravando-se na sua testa. Ao ver a cena, uma das moradoras não contém o choro. Clapet, o elemento que dava coesão e sentido aquele sistema estava eliminado. As lágrimas da senhora trazem consigo todo o medo do que seria o futuro sem o homem que garantia a manutenção de todo aquele sistema que, de um jeito ou de outro, mantinha a sobrevivência da espécie.

Em Delicatessen tudo foi minuciosamente pensado para servir à narrativa e à construção do humor negro. A fotografia, amarelada a princípio para criar o clima de caos, se torna mais viva ao final, evidenciando a superação daquele sistema brutal e a recuperação de certos valores. A arte, que é assinada por Jeunet, um dos diretores do filme, privilegia cores quentes e objetos dispostos de maneira aleatória. Os únicos momentos em que as cores frias saltam os olhos são as que retratam a vida da única personagem que não quer viver, tentando o suicídio constantemente.

Enfim, Jeunet e Caro fazem um dos humores negros mais sagazes e inteligentes dos últimos tempos. Os enquadramentos e movimentos de câmera promovem a fluidez e o dinamismo necessários ao filme, além de dar o “time” ideal para os momentos de comédia. O filme arranca boas risadas dos espectadores, mas também é capaz de promover um debate sobre os valores humanos e a sua degradação. Querendo ou não, o universo surrealista construído em Delicatessen também fala um pouco da nossa realidade: põe em questão o individualismo, a competitividade e a falta de humanismo.

 

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Léo Rodrigues

Repórter da Agência Brasil, formado em Comunicação Social pela UFMG em 2010. Ex-jornalista da TV Brasil e do Portal EBC, onde também atuou como editor de esportes. Diretor de documentários cujo foco de interesse é a cultura popular, entre eles os longas "Aboiador de Violas" e "Pra fazer carnaval mais uma vez". Saiba mais

 

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