Portfólio do editor em

Belo Horizonte,

Mapa do Blog | Avise Erros | Contato

COMUNICAÇÃO | SOCIEDADE | CULTURA | ESPORTE

 

CULTURA


Cultura democrática e popular Compartilhar

Entre a gula e a luxúria

 
Fernanda Cabral, Laura Guimarães e Léo Rodrigues | 01/02/2008 Notícia publicada pela Revista Outro Sentido,
publicação experimental do Curso de Comunicação Social da UFMG

“Experimente chamar alguém para te ver cozinhar um simples frango com molho e ouse nos movimentos sensuais, na roupa e nos aromas dos temperos. Procure acertar o sal do prato colocando pitadas aos pouquinhos, em movimento circular na panela, esfregando lentamente o indicador contra o polegar e olhando por cima das sobrancelhas para o seu convidado com aquela cara de ‘sim, é o que você está pensando!’. Ou então prove o molho com uma colher de sobremesa, colocando devagar na boca, puxando e engolindo lentamente enquanto mantém o olhar fixo no seu convidado, que já estará no clima, e termine com o clichê da lambidinha nos lábios! Depois disto tudo, frango com molho é ou não é afrodisíaco?”

Hum... a proposta lhe pareceu tentadora? Para Juliano, 30 anos e amante da arte de cozinhar, toda comida pode ser afrodisíaca, desde que a vejamos como um estimulante sexual. Um ritual desses para preparar uma refeição certamente desperta “apetites”.

O professor de Gastronomia da Faculdade Estácio de Sá, Beto Haddad, concorda com essa visão. “Na ingestão destes alimentos, o efeito é puramente psicológico ou até mitológico”, diz. A codorna, por exemplo, é um animal que tem alto grau de fecundidade e por isso seu ovo é símbolo de afrodisíaco.

Apesar de o efeito afrodisíaco funcionar por sugestão, existe, sim, um tempero que pode ajudar na hora H. “A pimenta é um vaso dilatador periférico, fator extremamente importante na hora do sexo por ajudar a tornar as áreas responsáveis pela sensibilidade mais irrigadas com sangue, aumentando a probabilidade de se chegar mais rápido a um orgasmo”, afirma Beto. Ainda assim, a pimenta não é um afrodisíaco, pois não promove excitação e nem aumenta a libido.

Kama Sutra é apenas um dos vários documentos históricos que faz referência aos afrodisíacos

Kama Sutra é apenas um dos vários documentos históricos que faz referência aos afrodisíacos | Foto: Alisha Vargas / Creative Commons

Mas então que alimento seria capaz de realizar tal façanha? Inúmeras pesquisas já tentaram descobrir nutrientes capazes de aguçar sensações sexuais, produzir excitação cerebral, estimular a espinha dorsal inferior ou provocar alterações na uretra. Mas a verdade é que nenhum alimento é comprovadamente capaz de provocar os efeitos descritos.

Sem uma explicação científica, surge espaço para as mais diversas interpretações. A própria palavra tem origem mitológica. Ela vem de “aphrodisiako”, que na língua grega que dizer “desejo sexual”, relativo à Aphrodisa (Afrodite), deusa do amor, da beleza e do sexo.

Kama sutra e o imaginário oriental

Sejam os efeitos comprovados ou não, certos alimentos são considerados estimulantes sexuais há centenas de anos. O Kama Sutra, principal e mais famoso livro de referências sexuais, estimulantes e afrodisíacos, foi escrito na Índia, no século IV, por um estudante celibatário chamado Vatsyayana. O livro não é apenas um manual de posições sexuais. Além de trazer detalhadamente 64 formas de amar, ele pretende também desenvolver o erotismo e a sensualidade preparando o momento com aromas, músicas e comidas afrodisíacas.

O Kama Sutra aborda o amor e enfatiza a sua experiência nos cinco sentidos, na alma e na mente do homem. O professor Beto Haddad exemplifica como uma comida pode despertar todos sentidos, que dá água na boca só de pensar: “um prato muito bem decorado, sons que possam vir do ato de comer, partir ou até um borbulhar de um cozido e um cheiro maravilhoso. É de arrepiar o corpo na hora de comer”.

Os chineses também utilizam afrodisíacos há bastante tempo, tendo receitas extremamente famosas. Na China, os órgãos sexuais de alguns animais, como testículos de veados, são muito apreciados. Foram os chineses também que descobriram o gengibre e o ginseng, duas raízes usadas como afrodisíacos até hoje.

Sagrado e profano

O Kama Sutra é apenas um dos vários documentos históricos que faz referência aos afrodisíacos. Outro desses documentos é a Bíblia, a começar pela sua interpretação do surgimento dos homens. Adão e Eva, as primeiras criações humanas de Deus, viveriam eternamente no Jardim de Éden, não fosse a irresistível tentação de comer o fruto proibido que lhes valeu a expulsão do paraíso. Segundo Irmã Ione, embora pintores e obras literárias católicas tenham retratado a maçã como o fruto proibido, a associação é convencional: “não há nenhuma passagem na Bíblia que define qual o alimento que expulsou Adão e Eva do paraíso”. Ela não se arrisca a dizer se o fruto tem relação com o pecado cometido pelo casal primogênito.

A relação entre religião e os afrodisíacos não pára por aí. O Cântico dos Cânticos, livro da Bíblia escrito pelo Rei Salomão, faz referências à raiz de uma planta com efeito afrodisíaco. No capítulo 7, versículo 13, lê-se a seguinte passagem: "As mandrágoras estão cheirando o perfume. Temos na porta muitas frutas deliciosas, velhas e novas, que eu tenho guardado para ti, oh meu amor!" Mais adiante, um relato repleto de elementos românticos se passa entre as tais mandrágoras.

Para Isabel Allende, pêssegos são muito evocativos porque parecem seios

Para Isabel Allende, pêssegos são muito evocativos porque parecem seios | Foto: Victoria Rachitzky / Creative Commons

A relação entre o Cristianismo e os afrodisíacos vai além da Bíblia. Um dos alimentos que mais proporcionam prazer - o “bendito” chocolate – foi mantido em segredo por monges católicos espanhóis durante muito tempo. As primeiras iniciativas de transformar o fruto do cacau em bebida ocorreram nas comunidades maias e astecas. Foram os colonizadores espanhóis que levaram tal conhecimento para a Europa, onde a bebida, até então bastante amarga, foi reformulada para atingir um gosto bem próximo daquele que saboreamos hoje. Por vários anos, a receita foi servida apenas a membros da nobreza estrangeira de passagem pelo país.

Padres, freiras e até mesmo estudiosos clérigos evitam discorrer sobre o assunto. Mesmo com todo o mistério, é possível delinear algumas causas da linha tênue entre o sagrado e o profano. A chilena Isabel Allende, em seu livro “Afrodite, contos, receitas e outros afrodisíacos”, aborda a relação entre comida, afrodisíacos e religião da seguinte forma: “A gula é um dos caminhos mais diretos para a luxúria e, se avançarmos um pouco mais, para a perdição da alma. Por isso, luteranos, calvinistas e outros aspirantes à perfeição comem mal. Os católicos, em compensação, que nascem resignados ao pecado original e às fraquezas humanas (...) são muito mais flexíveis com relação à boa mesa, tanto que cunharam a expressão “boccata di cardinale” para definir algo delicioso.”

O prazer que sentimos ao comer fica evidente, muitas vezes, de forma erótica. É Juliano quem explica: “Quando você come uma comida da qual gosta muito, não é de se espantar que mude a sua posição na cadeira, a forma como você segura e leva os talheres até a boca, suas expressões, seus movimentos ao mastigar. Tudo isso dimensiona o prazer que você sente, mas não percebemos o quanto esta situação pode ser erotizada”.

Brasileirinhas

No Brasil, os afrodisíacos estão presentes no senso comum: poderes estimulantes são atribuídos a amendoins, catuaba, marapuama, maca, Tribulus Terrestres e por aí vai. Não é difícil se deparar com a presença desses alimentos, casos e piadas relacionadas a eles. O famoso Luiz Gonzaga cantava que “minha companheira está feliz porque eu comprei ovo de codorna pra comer”.

Há, contudo, alimentos menos comuns e receitas mais sofisticadas que não são tão populares entre os brasileiros. O professor Beto conta que, há cerca de dez anos, um restaurante chinês de Belo Horizonte chamado Moutai fez um festival de pratos afrodisíacos cujo cardápio incluía insetos e órgãos estranhos de animais, dentre outros famosos afrodisíacos do mundo. “O telefone não parou de tocar para informações mas, nos dois dias de festival, apareceram apenas sete pessoas para a degustação.”

Vergonha

A curiosidade de experimentar uma comida afrodisíaca envolve muita gente, mas, na hora de procurá-la algumas pessoas ficam tímidas. “Elas sentem vergonha ao pedir alguma erva dita afrodisíaca. Então, criam várias expressões para caracterizá-la: ‘estimulante físico’, ‘tônico’, etc. Mas é tudo a mesma coisa”, diz a vendedora Admeia Ferreira, da Casa das Ervas, no Mercado Central de Belo Horizonte. O professor Beto conta que raramente os alunos lhe pedem alguma receita afrodisíaca, e aquele que pede dificilmente volta para relatar o resultado. “Mas uma vez uma aluna me confidenciou que não valeu de nada”, lembra ele.

A opinião sobre a eficácia dos afrodisíacos varia de acordo com a experiência de cada um. Não seria hora de deixar de lado a vergonha e experimentar alguma coisa mais ousada? Seja nos ingredientes ou no modo de fazer. O segredo está mais no imaginário das pessoas do que na própria comida. Cabe a você entrar no clima e fazer um simples frango com molho... Quem disse que não é afrodisíaco?

 

Faça você mesmo:

Sugestão do livro Afrodite: contos, receitas e outros afrodisíacos de Isabel Allende:

Delícias de Pêssego
Para Isabel Allende, são muito evocativos porque parecem seios.

Ingredientes:
1 pêssego grande maduro e sem casca
2 bolas de sorvete de limão
2 cerejas ao marrasquino
1 colher de licor de marrasquino
1 taça de champanhe rose

Preparação:
Parta o pêssego pela metade e retire o caroço. Coloque cada metade em uma taça com boca larga. Coloque em cima uma bola de sorvete, enfeite com as cerejas e com um pouco do licor de marrasquino, encha as taças de champanhe e sirva imediatamente.

 

comments powered by Disqus

 

O EDITOR


Léo Rodrigues

Repórter da Agência Brasil, formado em Comunicação Social pela UFMG em 2010. Ex-jornalista da TV Brasil e do Portal EBC, onde também atuou como editor de esportes. Diretor de documentários cujo foco de interesse é a cultura popular, entre eles os longas "Aboiador de Violas" e "Pra fazer carnaval mais uma vez". Saiba mais

 

O BLOG


O trabalho do jornalista nunca é isento. Trata-se de um exercício constante de escolhas. Para onde apontar a lupa? De que ângulo posicionaremos a lupa? Este espaço surge a partir do interesse do editor em concentrar o seu acervo de produções jornalísticas e, ao mesmo tempo, propor coberturas e reflexões sobre comunicação, sociedade, cultura e esporte. Entenda melhor a proposta

 

QUEM É O EDITOR | PROPOSTA DO BLOG | MAPA DO BLOG | AVISE ERROS | CONTATO

Alguns direitos reservados
Todo o conteúdo deste site está publicado sob a Licença Creative Commons Atribuição 3.0 Brasil exceto quando especificado em contrário.
Permitida a cópia, redistribuição e alterações desde que se conceda os devidos créditos e mencione caso alguma adaptação tenha sido realizada.
Saiba mais como funciona a Licença Creative Commons Atribuição 3.0 Brasil