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Alma Corsária e Meu Mundo em Perigo: histórias que se cruzam

 
Léo Rodrigues | 01/11/2008 Crítica produzida no âmbito da Mostra CineBH

Esta crítica foi produzida durante participação na oficina "Análise da Linguagem Cinematográfica", ministrada pelo crítico Cléber Eduardo no Cine BH 2008.

Não são poucas as pessoas que, de alguma forma, passam pela nossa vida. Sobretudo os amigos constantemente nos colocam em situações que nos mostram o quão marcante é o papel deles em nossa história. Mas existe ainda um conjunto de diversos outros personagens que, através de pequenos contatos ou ações, influenciam a trajetória que vamos construindo. Essa complexa rede de relações é apresentada em Alma Corsária, do diretor Carlos Reichenbach.

O filme utiliza o lançamento do livro “Sentimento Ocidental” como pretexto para revistar cenas do passado dos autores da obra: Rivaldo e Teodor, amigos desde a adolescência. A superioridade econômica do segundo definiu diferenças de pensamento, mas jamais provocou o desligamento do elo que os unia. O lançamento do livro reúne, no boteco Pastelaria Espiritual, diversos personagens que influenciaram a vida de ambos. As pessoas retratadas no filme e as situações apresentadas foram, como o próprio filme anuncia, construídas a partir de experiências vividas pelo diretor.

Nesse sentido, a atmosfera do filme é conduzida por uma mescla entre um viés realista e outro formalista, com predominância deste último. O viés realista se expressa em duas direções: primeiramente, tenta-se reconstituir uma amizade a partir de experiências que o diretor de fato vivenciou. Em segundo lugar, grande parte do filme se passa no contexto da ditadura militar, sendo notável uma apresentação do factual histórico daquele período: a opressão, a censura, a supressão do livre pensamento, etc. Mas é também nesse movimento que se evidencia uma intervenção subjetiva do diretor. Ele a interpreta e cria um sentido a essa realidade, fazendo críticas através da inserção de elementos cenográficos surreais.

A articulação das cenas leva o espectador a fazer determinados caminhos pela história, pois os cortes temporais propõem que alguns acontecimentos do presente são conseqüências de eventos específicos do passado. Assim, uma paixão entre Rivaldo e uma prostituta decorre de uma farsa que o primeiro foi convencido a realizar. Ele se apresenta como noivo para a família da prostituta, o que requer uma encenação de atos com muita proximidade. Mas mesmo afastados dos parentes da moça, ambos dão continuidade às carícias. Há aqui uma complexificação entre a fronteira do imaginário (ficção) e do real.

O período da infância é, porém, primordial para o estabelecimento da amizade de Rivaldo e Teodor. Começa na escola, onde Teodor é novato e rejeitado pelos outros por ser “riquinho”. Rivaldo se aproxima, apresenta-o à turma e a uma garota. Teodor, por sua vez, influencia os estudos do amigo, que passa a ser caracterizado de “nerd”. Mas a dificuldade econômica da família impõe à Rivaldo o desafio de se mudar, para trabalhar, e ele acaba no litoral. Teodor o visita. Ou não. Sentados num banco, a câmera se movimenta para enquadrar apenas o rosto de Rivaldo e, quando o plano é novamente aberto, Teodor não está mais lá, deixando a dúvida se o diálogo de ambos teria sido um sonho. Mas não importa. A ligação de ambos resiste à distância. No mesmo minuto em que Rivaldo dança no litoral, Teodor, a quilômetros, está tocando com sua banda de música. A melodia de um acompanha a movimentação do outro.

Durante a ditadura militar, Reichenbach permite, de forma surreal, que as pessoas literalmente chorem sangue. Nesse contexto sombrio, a amizade da dupla se fortalece, mas as diferenças de pensamento se tornam mais claras. Ambos discutem política e a câmera se fecha, focando os dois, evidenciando a atenção que o diretor dá ao tema. Teodor sente que deve se engajar na luta armada. Rivaldo teme o embate, pois, diferente do amigo, não teria a família para lhe socorrer caso fosse preso.

Mas o círculo de amizades não deixa que Rivaldo se isente de contribuir com a luta contra o regime militar, pois vários deles estão diretamente engajados. Morando na casa emprestada de um amigo, ele se vê diante da tarefa de emprestar o espaço para se tornar um “aparelho”. Os militantes passam a circular por lá e, nesse ambiente, Reichenbach faz algumas de suas críticas mais ferozes. Um jovem discursa de madrugada afirmando que a vanguarda deve se ligar ao proletariado, mas se esquece de que está perturbando o sono do único trabalhador que ali se encontra: Rivaldo. Há uma perceptível distância entre os militantes e quem eles dizem defender. O sectarismo também se evidencia através do ritual da leitura, numa cena perturbadora na qual os diversos militantes andam de um lado pra o outro com seus livros na mão, enquanto Rivaldo não consegue dormir. Teoria e prática não alcançam sintonia, ganhando primazia o dogma das palavras revolucionárias. É aí que Rivaldo, simbolicamente, retira todas as camisas marxistas, trotskistas, leninistas, etc, optando definitivamente pelo anarquismo, contrária a ordem que seus hóspedes estabeleceram e que tanto lhe perturbava.

O tema da ditadura ainda permite que Reichenbach apresente nuances de outras reflexões. A nova paixão de Rivaldo, uma militante que se hospeda em sua casa por um longo período, precisa partir para a luta. A câmara subjetiva toma o lugar de Rivaldo que, da janela de seu apartamento, alcança o fusca que leva embora a namorada. O protagonista não se conforma: em nome de uma sociedade repleta de maravilhas, a garota abdicou das maravilhas reais que vivenciava com Rivaldo.

Sobram críticas ainda aos valores arraigados na sociedade capitalista. Os operários apenas devem reproduzir aquilo que lhe pedem. Não pensam, não tem vida. Num novo movimento surreal, Reichenbach os retratam através de uma verdadeira caveira datilografando numa redação jornalística.

Se os temas políticos proporcionam a Reichenbach exercer uma atividade formalista através da crítica, no aspecto das relações pessoais, o formalismo se apresenta carregado de mistérios. Há uma mulher vestida de preto que baila, sobre a cidade ou do outro lado do rio. Ela está sempre aparecendo para Rivaldo e, não importam quantas e quantas namoradas ele tenha, esta mulher estará sempre lá. E é ela que vem buscar Rivaldo ao fim da festa de lançamento do livro. Não importa quem ou o que ela seja, é a ela que Rivaldo buscava. Ele de fato a alcança através do reencontro de sua história, no lançamento do livro.

Mas os demais personagens também alcançam o seu deleite, através da música suave e bela, clássica, a substância da arte. Alguém toca um piano de cauda. Todos entram em êxtase em suas reminiscências particulares. Um homem forte exibe seus músculos de forma idêntica a um dos curtas dos irmãos Lumière. Reichenbach liga a origem do cinema à origem da música, clássica na essência. O cinema é arte.

A tudo isso se somam paisagens belas, do litoral, do campo, da cidade. Cenas são intercaladas por citações poéticas de Augusto dos Anjos e Cesário Verde, saídas das bocas dos próprios autores. São versos que perfuram suas vidas. O cinema é arte outra vez. Mistura-se à música, à literatura, à beleza natural. Só mesmo uma “pastelaria espiritual” para suscitar todas estas sensações.

Este é também o espírito de Meu Mundo em Perigo, do diretor José Eduardo Belmonte. Há muito de Reichenbach nele, embora sua história não se firme num contexto político específico. A preocupação maior é se voltar para os personagens e sua relação com a cidade. Vemos assim uma câmera mais amena, sem cortes ríspidos e sem muitos movimentos. Parece querer captar profundamente o aspecto pessoal e, nesse sentido, deixa mais espaço para o trabalho do ator. Mas aqui, como em Alma Corsária, as histórias se cruzam, muitas vezes de forma impactante. A alegria de um pode ser a desgraça de outro.

Meu Mundo em Perigo privilegia a história da relação entre Elias, um homem divorciado que briga pela guarda do filho, e Isis, uma mulher que finge ser muda. O primeiro, quando recebe a negativa definitiva da justiça, se embriaga e atropela um senhor, fugindo na seqüência. Nesse momento, estoura-se a fotografia. Elias está perdido e tudo é branco para ele. Não sabe o que fazer. Isis, por sua vez, saiu de casa por não se conformar que a morte de seu pai tenha representado a alegria de sua mãe. A crueza do mundo a impele ao silencio. As palavras não dão conta das emoções. O filme reforça essa conclusão. Há diálogos cujo áudio é atravessado pela trilha sonora, impedindo o entendimento claro. As palavras não importam, são insuficientes. Às vezes, são mais silenciosas que o silêncio. Por vezes, a trilha sonora grita em meio a esse ambiente ensurdecedor.

Há ainda a história do senhor atropelado, de seu filho Fito e a esposa deste. Embora sejam secundários, não estão apenas a serviço da história principal. Os três personagens revelam sentimentos próprios e individuais que complementam o sentido do filme. Assim como os primeiros, não evidenciam projetos, não tem planos para o futuro. Na verdade, todos eles estão em busca de um projeto e, enquanto isso, vivem o presente.

Meu Mundo em Perigo embora não situe os fatos num tempo determinado como em Alma Corsária, reforça a idéia deste de que o passado influi sobre o presente. As fotografias registram momentos que determinam uma trajetória. Lembranças do velho têm impacto sobre o novo. As reminiscência são apresentadas em imagens que lembram o Super 8, o que torna belo e, ao mesmo tempo, reforça a noção de antigo. De qualquer maneira, assim como em Alma Corsária, o passado não tem retorno e terá impacto decisivo no futuro dos personagens. É o que revela a cena final, onde Fito, Isis, Elias e sua esposa se encontram. O trânsito da câmera entre eles evidencia o ambiente subjetivo de cada um, desnudando a responsabilidade que todos têm sobre as histórias dos demais.

 

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Léo Rodrigues

Repórter da Agência Brasil, formado em Comunicação Social pela UFMG em 2010. Ex-jornalista da TV Brasil e do Portal EBC, onde também atuou como editor de esportes. Diretor de documentários cujo foco de interesse é a cultura popular, entre eles os longas "Aboiador de Violas" e "Pra fazer carnaval mais uma vez". Saiba mais

 

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