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Bordados ajudam a revelar perfil do líder da Revolta da Chibata

 
Léo Rodrigues | 23/04/2013 - 16:48 Notícia publicada pelo Portal EBC

Segundo o historiador José Murilo de Carvalho, as duas toalhas bordadas por João Cândido quando ele estava na prisão permitem construir uma visão mais humana do marinheiro

João Cândido, líder da Revolta da Chibata

João Cândido, líder da Revolta da Chibata
Foto: Domínio Público

A história pode ser contada na ponta da agulha. É o que atesta duas obras recuperadas em São João Del-Rei (MG). São toalhas bordadas por João Cândido, que liderou a Revolta da Chibata, quando diversos marinheiros se mobilizaram em 1910 contra os castigos corporais da Marinha brasileira. Os bordados, que faziam parte do acervo de um museu desativado, deverão passar por um processo de restauração com recursos do PAC das Cidades Históricas, programa coordenado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Os dois bordados chegaram à São João Del-Rei por intermédio de um cidadão local. Antônio Manuel de Sousa Guerra, membro do 51º Batalhão de Caçadores, foi convocado ao Rio de Janeiro para auxiliar no policiamento da cidade durante a Revolta da Chibata. Naquele tempo, eram comuns eventuais deslocamentos de contingentes para a então capital federal. Antônio Guerra acabou incorporado a um grupo encarregado da guarda dos marinheiros presos, encarcerados na Ilha das Cobras. Tendo acesso aos porões, ele iniciou uma amizade com João Cândido, que lhe ofereceu os bordados em troca do acesso aos jornais da época.

LEIA TAMBÉM:

  • São João Del-Rei recupera bordados do líder da Revolta da Chibata
  • O historiador e professor da UFRJ, José Murilo de Carvalho, tomou conhecimento das relíquias em 1985 e publicou um artigo onde analisou de que forma elas contribuem para traçar um perfil do líder da Revolta da Chibata. Ele revela como ficou espantado com a descoberta: "João Cândido tinha a imagem de um marinheiro machão, alto e forte. Sua figura não combinava em nada com o hábito de bordar, que era encarado como uma prática feminina".

    Embora toscos, os bordados não são obra de quem se aventura pela primeira vez. "Os navios a vapor já existiam, mas esses marinheiros passaram por treinamento em embarcações a vela, de forma que eles teriam muita familiaridade em trabalhar com cordas e todo tipo de nós. Não é estranho imaginar que essa habilidade tenha alguma relação com o costume de bordar", especula José Murilo de Carvalho. O historiador ressalta que era comum que os marinheiros buscassem passatempos diversos para preencher as horas de inatividade, a bordo de um navio.

    Veja galeria de fotos das obras do Museu Tomé Portes Del-Rei
    (passe o mouse para ver legenda e clique para ampliar)

    Bordada pelo marinheiro João Cândido, a toalha intitulada "Amôr" integra o acervo de um museu no município de São João Del-Rei (MG). Bordada pelo marinheiro João Cândido, a toalha intitulada "Adeus do Marujo" integra o acervo de um museu no município de São João Del-Rei (MG). Bordada pelo marinheiro João Cândido, a toalha intitulada "Adeus do Marujo" integra o acervo de um museu no município de São João Del-Rei (MG).
    Detalhe da assinatura de João Cândido na toalha bordada "Adeus do Marujo". Detalhe do bordado "Adeus do Marujo", onde está inscrita a data do início da Revolta da Chibata: 22 de novembro de 1910. "Braço de justiça", peça do Museu Tomé Portes Del-Rei. O braço esculpido em madeira integrava a balança de arrecadação do quinto do ouro. Vinda de Portugal, a peça era usada na Casa de Fundição de São João del-Rei, no século XVIII.
    Acervo do Museu Tomé Porte Del-Rei inclui ainda um chapéu de guarda estilo francês e espadas republicanas. Retrato da Baronesa de Cana-Verde, mais uma obra do Museu Tomé Portes Del-Rei.

    Fotos
    Luciano Oliveira
    Secretaria de Cultura de
    São João Del-Rei

    Para o historiador, a descoberta dos bordados permite construir a imagem de um homem que não é aquele “brutamontes” mostrado pela literatura da Marinha. "De um lado, ele era vilipendiado pelo discurso oficial e, de outro, passou a ser exaltado e transformado num mito, sobretudo pelo movimento negro. Sua reputação ficou entre a calúnia e a mitificação. Os bordados permitem uma visão mais complexa e humana da figura de João Cândido", finaliza.

    As obras

    Denominadas Amôr e Adeus do Marujo, as obras trazem temáticas distintas. A primeira traz um coração atravessado por uma espada, cercado por flores, borboletas e pássaros, remetendo a uma possível paixão. "Curioso é a forma como ele grafou amor, utilizando um acento circunflexo. Ele lia, mas o grau de alfabetização não era muito alto, o que justifica alguns erros de grafia", diz José Murilo de Carvalho.

    OUÇA: Historiador José Murilo de Carvalho analisa bordados de João Cândido

    Segundo o historiador, o Adeus do Marujo é um tributo à amizade, mas traz um elemento interessante. Além do desenho, o marinheiro grafou na toalha as palavras ‘liberdade’ e ‘ordem’, conceitos que bem poderiam ser considerados antagônicos. "João Cândido ingressou na Marinha aos 15 anos e cresceu numa instituição militar onde prevalece a disciplina. Além disso, o lema republicano 'ordem e progresso' tinha forte influência entre os marinheiros. Mesmo após sua expulsão, João Cândido manteve um relacionamento sentimental com a instituição. Ele foi visto idoso se despedindo quando o navio Minas Gerais foi desligado. A liberdade, para ele, significava o direito a um tratamento que não fosse assemelhado aos escravos, como os próprios marinheiros diziam. Mas sem perder de vista a importância da disciplina", explica José Murilo de Carvalho.

     

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    Léo Rodrigues

    Repórter da Agência Brasil, formado em Comunicação Social pela UFMG em 2010. Ex-jornalista da TV Brasil e do Portal EBC, onde também atuou como editor de esportes. Diretor de documentários cujo foco de interesse é a cultura popular, entre eles os longas "Aboiador de Violas" e "Pra fazer carnaval mais uma vez". Saiba mais

     

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