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Tropa de Elite: o glamour da violência

 
Léo Rodrigues | 01/06/2014 Crítica realizada em 17/10/2007 no Laboratório Outro Sentido / Comunicação Social da UFMG
Nova versão do texto em 01/06/2014

“Somente uma cultura de fome, minando suas próprias estruturas, pode superar-se qualitativamente”. Glauber Rocha é quem proclama essa frase, na sua tese Estética da Fome, onde defende um cinema brasileiro que retrate a miséria com miséria. As imagens devem ser brutais, gritadas e desesperadas, sem que isso desprivilegie a arte. Com essa proposta, o Cinema Novo incomodou as elites e os governos, ao impor nas telas o dissabor dos problemas sociais, em contraposição com as obras digestivas, tão ao gosto da fome dos estrangeiros. Ainda que possamos considerar que outras propostas estéticas possam igualmente conduzir a uma problematização de nossos impasses sociais, a reflexão apresentada por Glauber Rocha nos permite um bom ponto de partida para a discussão dos polêmicos Tropa de Elite e Tropa de Elite II.

Em ambos os filmes, o diretor José Padilha demonstra seu talento para impor um ritmo intenso, que não dá espaço para qualquer distração do espectador. Ousa em movimentos de câmeras rápidos que privilegia a ação. Ao mesmo tempo, a bela fotografia forma uma imagem limpa. As cenas de tiroteio demonstram uma rigorosa preparação da produção. A edição contribui para evidenciar o cenário de uma grande guerra. Nos termos técnicos, o filme é impecável. Mas, levando em conta a premissa glauberiana, não podemos esquecer-nos da importância da articulação entre técnica e conteúdo.

Tropa de Elite: violência distante

Diante de Tropa de Elite, a crítica cinematográfica se dividiu e, em meio à polêmica, sobraram inclusive acusações de que os filmes transmitiam uma mensagem fascista. Estas posições foram repudiadas por José Padilha. No entanto, embora o peso da terminologia possa parecer exagerado, não devemos nos furtar a uma reflexão sobre o comportamento explícito de cunho conservador manifestado por parte da população após o sucesso de bilheteria do primeiro filme. Afinal, obras de arte não possuem sentido em si. O sentido de qualquer trabalho artístico se constrói no processo interativo, no encontro com o espectador. E é fácil perceber que algo pode ter saído muito errado entre pretensão e resultado. Afinal, o amplo alcance da obra foi acompanhado de efeitos controversos no ambiente social: jovens que se dispuseram a usar camisas do Bope, proliferação nas redes sociais dos jargões “faca na caveira” e “bandido bom é bandido morto”, além do endeusamento da figura do Capitão Nascimento, personagem principal.

Obviamente, não podemos dizer com convicção que o diretor teve intensão de transmitir uma mensagem conservadora e estimular a apoio ao Bope. Nem mesmo devemos ter essa pretensão. Conhecer a íntegra do que se passa em sua cabeça de um artista e apreender a sua subjetividade não é algo ao alcance da crítica. É possível, porém, elucidarmos alguns elementos e escolhas da produção e da direção do filme que possam ter favorecido leituras de cunho conservador.

Em contraposição aos críticos que acusaram Tropa de Elite de fazer apologia à violência promovida pela polícia, José Padilha afirmou que o foco do filme é a corrupção policial e o condenável abuso da tortura. O problema, porém, é que a imagem limpa embelezou a violência e criou uma “glamourização” do problema social. Não há, na fotografia, muito espaço para penumbras ou sombras. A ação pode ser apreendida por completo, observando-se todos os detalhes. É o extremo oposto da ideia glauberiana de se “retratar miséria com miséria”. Aqui, a violência aparece de forma bela: planos minuciosamente bem enquadrados e repletos de cores vivas.

A estética desenvolvida por José Padilha parece bastante influenciada pelo estilo americano: tomadas dignas de Hollywood e personagens que em nada devem para mafiosos de Cães de Aluguel, por exemplo. Só que Tropa de Elite não fala de policiais e mafiosos abstratos. Fala do Bope e da realidade das favelas cariocas.

Tropa de Elite apresenta uma realidade aparentemente distante. Mesmo contendo algumas cenas impactantes, o espetáculo promovido pela obra é facilmente digerido pelo público. Muitos dos que viram no cinema, o fizeram ao sabor das pipocas. O que passa na tela dá a impressão de que está longe, talvez em Hollywood. Não parece ser algo que acontece no seu próprio bairro ou a alguns poucos quilômetros de distância.

Também é fator de observação a construção da personalidade do Capitão Nascimento. Trata-se de uma figura cativante, engraçada, que promove um sentimento de apego no espectador, amenizando as cenas em que ordena a tortura. Ao coloca-lo como protagonista da história, somos instigados a tomar o seu ponto de vista como sendo nosso. A situação se agrava com a escolha da narração em off, guiada exatamente pelo “herói” do Bope. Qualquer escolha pela narração em off precisa considerar efeitos possíveis daquela voz que, muitas vezes, parece vir dos céus e se coloca como a verdade absoluta, a palavra de um “Deus” ausente na tela. O filme permite que o Capitão Nascimento assuma esse status.

Não se trata, porém, de dizer que um policial do Bope não possa ser apresentado com todas as contradições de sua figura. No entanto, os erros do Capitão Nascimento ficaram carentes de problematizações, favorecendo a leitura que o exalta como herói. Os dilemas que vive e o seu desejo de combater a criminalidade (ainda que por métodos condenáveis) não justificam as arbitrariedades cometidas e o abuso de sua autoridade policial. Nos dois filmes, seu carisma emerge como um possível abono para os crimes que comete.

Tropa de Elite II: descrédito da política

Em Tropa de Elite II, José Padilha tinha a chance de desfazer eventuais problemas na transmissão de sua mensagem. Mas opta por uma desqualificação infantil do debate público e político em torno da segurança pública. Na voz do Capitão Nascimento, surgem as críticas ao governo conservador. Em outros momentos, constrói cenas que cumprem o papel de fragilizar a oposição. Tropa de Elite II começa sua narrativa com uma sequência em que o professor de história Diogo Fraga apresenta, em sala de aula, uma reflexão banal na qual conclui que seguindo o ritmo de prisões em curso no país, 90% da população brasileira estaria na cadeia em 2081. Com um raciocínio tão surreal, o cartão de visitas que é dado logo no início do filme é um aviso para não se levar tão a sério a principal voz da oposição.

Se nem governo e nem oposição parecem estar preparados, resta a José Padilha atirar para todos os lados. Ao fim, Tropa de Elite II conclui a ideia construída ao longo do filme: não há solução para o problema da segurança pública. Sobretudo não há perspectiva política para superar os impasses. Em depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, o Capitão Nascimento declara que, com exceção de um ou dois, TODOS os deputados têm ligação com o tráfico e o crime organizado. É o descrédito da política que se estampa na tela. A cena se funde com a imagem do Congresso Nacional, em Brasília. Lá, como no Rio de Janeiro, a situação seria a mesma.

José Padilha traça um problema, não sugere perspectiva e, ao fundo, seu filme não traz reflexão produtiva. E ao negar a política, reforça mais uma vez o discurso conservador, que se aproveita do descrédito coletivo para propor retrocessos e saídas baseadas em propostas autoritárias.

Quando se pensa que não há mais alternativa através da política, surgem os aplausos da sociedade para o Capitão Nascimento, o herói que está acima da lei, acima dos direitos humanos. Infelizmente, as escolhas do diretor reforçam este tipo de pensamento: o sistema é totalmente corrompido, a política é uma farsa, o nosso voto não vale nada. Nesse contexto, o filme é extremamente agradável para os setores mais conservadores da população, justamente porque dialoga com sua visão de mundo. Para eles, só há uma esperança: o Capitão Nascimento pode nos salvar.

 

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Léo Rodrigues

Repórter da Agência Brasil, formado em Comunicação Social pela UFMG em 2010. Ex-jornalista da TV Brasil e do Portal EBC, onde também atuou como editor de esportes. Diretor de documentários cujo foco de interesse é a cultura popular, entre eles os longas "Aboiador de Violas" e "Pra fazer carnaval mais uma vez". Saiba mais

 

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