Portfólio do editor em

Belo Horizonte,

Mapa do Blog | Avise Erros | Contato

COMUNICAÇÃO | SOCIEDADE | CULTURA | ESPORTE

 

ESPORTE


Bastidores Compartilhar

Fifa investe pouco no país que realizará a Copa mais lucrativa da história

 
Léo Rodrigues | 28/04/2014 - 14:52
* Colaborou Thaís Araújo e Daniel Isaía
 

Lucro da entidade também é estimulado por uma renúncia fiscal do Governo brasileiro superior a R$ 558,83 milhões, que inclui até imposto de renda de pessoas físicas

A Fifa é uma instituição sem fins lucrativos que tem por finalidade desenvolver o futebol em todo o mundo. No entanto, ela não tem dedicado muitos recursos ao país da seleção pentacampeã. É o que alega Pedro Trengrouse, professor de Faculdade de Direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV)  e consultor da ONU para a Copa. Ele entende que o Governo brasileiro precisa apresentar suas exigências, sobretudo porque esta será a Copa do Mundo mais lucrativa da história.

Segundo Pedro Trengrouse, a África do Sul recebeu em 2010 cerca de US$ 70 milhões de dólares.  Com esse recurso, a Fifa criou 54 centros de treinamento, ofereceu cursos de capacitação para profissionais ligados ao futebol e patrocinou clubes e competições. A história não estaria se repetindo no Brasil. "Desde 1998, a Fifa já investiu US$ 2 bilhões em programas de desenvolvimento do futebol. Quanto disso veio para o Brasil? Nesse ciclo da Copa de 2014 o orçamento da Fifa para desenvolver o futebol no mundo chega a US$ 800 milhões. Quanto disso será investido no Brasil?", questiona o consultor.

- Ouça áudio de Pedro Trengrouse

Procurada para se pronunciar sobre essas críticas, a Fifa respondeu por meio de nota que na Copa de 2010 os US$ 70 milhões não foram investidos somente na África do Sul e sim em todo o continente africano. Entre outras medidas, foram criados 54 gramados, oferecidos 150 cursos para formação de treinadores e árbitros, organizadas competições juniores, além dos investimentos na formação de gestores, na implantação de sistemas digitais, na aquisição de materiais esportivos e produção de material histórico sobre o futebol africano.

LEIA TAMBÉM:

  • Concentração de investimentos na Copa garante 42% dos recursos para o Sudeste
  • Fifa não explica como irá explorar estúdios de TV de R$3,8 milhões em Copacabana
  • Ao mesmo tempo, a Fifa alega que em 2014 está apoiando 108 programas de desenvolvimento social ligados ao futebol em todo o mundo, sendo que 25 instituições brasileiras estão sendo contempladas. O investimento no país chegará a US$ 1 milhão. Além disso, o programa “11 pela Saúde”, voltado para a educação em saúde, beneficiará 7 mil crianças em todas as doze cidades-sedes. Já em relação à organização da Copa do Mundo, a Fifa terá um custo de US$ 1,5 bilhão, dos quais US$ 850 milhões serão investidos diretamente na economia brasileira por meio da contratação de serviços locais.

    Enquanto a Fifa anuncia programas sociais no Brasil que giram em torno de US$ 1 milhão, o lucro da entidade com a Copa do Mundo deverá alcançar US$ 4,46 bilhões. A cifra é apontada por estudo da consultoria BDO e representa um aumento de 36% em relação ao faturamento da Copa do Mundo de 2010 na África do Sul e de 110% em relação à edição disputada na Alemanha, em 2006.

    Cobranças

    Em visita ao Itaquerão na última terça-feira, 22, Jérome Valcke disse que o estádio estará pronto para a Copa do Mundo "no último minuto". O secretário-geral da Fifa é quem mais faz cobranças ao Brasil e chegou a dizer, em janeiro, que esta é a edição do evento com o maior atraso em obras desde que ele entrou na entidade, em 1975. Para Pedro Trengrouse, a situação da Copa de 2014 não é muito diferente das outras e não há motivos para ficar acuado diante de declarações como essa. Ele lembra que o estádio da final da última Copa foi inaugurado em Johanesburgo no dia 2 de junho de 2010, a 10 dias do início da competição. "A Fifa vai sempre agir dessa forma. Eu entendo o papel dela em cobrar mais agilidade. Por outro lado, é o papel do Brasil cobrar uma série de contrapartidas para compensar o esforço de realizar a Copa do Mundo", diz ele.

    Para o consultor da ONU, a Fifa também poderia contribuir com a evolução do futebol brasileiro. "Serão quatro jogos em cada cidade-sede e o futebol brasileiro é quem vai ter que encher esses estádios depois para que eles sejam rentáveis e sustentáveis. Por isso, é inadmissível que a Copa do Mundo passe pelo Brasil deixando o futebol brasileiro para trás. Na minha opinião, o nosso futebol necessita de um choque de gestão. É preciso melhorar os padrões de governança dos clubes e das federações. A Fifa pode trazer experiência do mundo inteiro para nos ajudar", defende ele.

    Renúncia fiscal

    A forma mais significativa de arrecadação da Fifa num evento desse tipo é decorrente da venda dos direitos de transmissão, que deverá render cerca de US$ 2,2 bilhões. Em seguida, vêm os acordos publicitários, conforme explica Orlando Alves dos Santos Júnior, pesquisador do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (Ippur/UFRJ). "A Fifa se torna guardiã dos interesses de patrocinadores e empresas parceiras e exige dos países que sediam a Copa certos privilégios a eles. A Lei Geral da Copa dá essas garantias, inclusive impedindo em determinados espaços públicos a comercialização de outros produtos que não sejam de seus patrocinadores. Então a Fifa vai ter poder de gestão de áreas urbanas. Por isso, o ganho comercial indireto ainda está para ser calculado", explica ele.

    O Ippur/UFRJ tem acompanhado as transformações que a Copa está produzindo no espaço urbano e uma das pesquisas que vem sendo desenvolvidas é justamente sobre a lucratividade do evento. Segundo Orlando Alves, além das vendas dos direitos de transmissão e dos acordos comerciais, a renúncia fiscal do Governo brasileiro compõe uma considerável fatia desse lucro da Fifa. A Receita Federal projeta que a entidade ganhou uma isenção fiscal de mais R$ 558,83 milhões em impostos federais.

    - Ouça áudio de Orlando Alves

    No nível federal, a Fifa não precisará pagar oito tipos de tributos, entre eles IPI, PIS/PASEP, IOF,  Cofins e inclusive imposto de renda de pessoas físicas, o que beneficiará jogadores, árbitros, dirigentes esportivos, etc. Além disso, a Lei 12.350/2010 criou um programa de incentivos fiscais para construção e reforma de estádios que desonera a compra de materiais e a contratação de serviços. Juntos, todos os doze estádios obtiveram uma desoneração de R$ 329,28 milhões.

    A conta não para por aí. "A renúncia fiscal não envolve apenas o Governo Federal, mas há também leis municipais e estaduais que concedem isenções e isso torna muito mais complexo o cálculo. Ainda estamos debruçados sobre isso e esperamos ter um relatório mais completo ao final da nossa pesquisa. Mas desde já, só levando em consideração a renúncia do Governo Federal, já se pode estimar que há uma grande lucratividade por parte da Fifa", explica Orlando Alves.

    O pesquisador lamenta que os interesses econômicos prevaleçam na organização da Copa do Mundo. "Os acordos envolvem concessões bastante questionáveis movidas pelos grandes interesses econômicos por trás desse negócio e infelizmente não há contrapartidas sociais relativas à democratização do esporte ou que contribuam para associar o futebol à educação e à cultura", opina.

     

    comments powered by Disqus

     

    O EDITOR


    Léo Rodrigues

    Repórter da Agência Brasil, formado em Comunicação Social pela UFMG em 2010. Ex-jornalista da TV Brasil e do Portal EBC, onde também atuou como editor de esportes. Diretor de documentários cujo foco de interesse é a cultura popular, entre eles os longas "Aboiador de Violas" e "Pra fazer carnaval mais uma vez". Saiba mais

     

    O BLOG


    O trabalho do jornalista nunca é isento. Trata-se de um exercício constante de escolhas. Para onde apontar a lupa? De que ângulo posicionaremos a lupa? Este espaço surge a partir do interesse do editor em concentrar o seu acervo de produções jornalísticas e, ao mesmo tempo, propor coberturas e reflexões sobre comunicação, sociedade, cultura e esporte. Entenda melhor a proposta

     

    QUEM É O EDITOR | PROPOSTA DO BLOG | MAPA DO BLOG | AVISE ERROS | CONTATO

    Alguns direitos reservados
    Todo o conteúdo deste site está publicado sob a Licença Creative Commons Atribuição 3.0 Brasil exceto quando especificado em contrário.
    Permitida a cópia, redistribuição e alterações desde que se conceda os devidos créditos e mencione caso alguma adaptação tenha sido realizada.
    Saiba mais como funciona a Licença Creative Commons Atribuição 3.0 Brasil