Portfólio do editor em

Belo Horizonte,

Mapa do Blog | Avise Erros | Contato

COMUNICAÇÃO | SOCIEDADE | CULTURA | ESPORTE

 

SOCIEDADE


Educação Compartilhar

O predomínio do inglês

 
Léo Rodrigues | 22/05/2008 Notícia publicada no Tubo de Ensaio, portal laboratório do curso de Comunicação Social da UFMG

Por que a maioria dos candidatos ao vestibular da UFMG opta por realizar a prova de língua estrangeira no idioma inglês?

A cada ano, cresce o percentual de candidatos ao vestibular da UFMG que optam por realizar a prova de língua estrangeira no idioma inglês. O aumenta se dá, sobretudo, em detrimento daqueles que escolhem o idioma espanhol, pois a opção pela língua francesa tem se mantido estável. Dados da Copeve (Comissão Permanente de Vestibular da UFMG) indicam que entre 2005 e 2007, o número de candidatos que optam pelo inglês saltou de 55,9% para 61,5%, ao passo que a escolha pelo espanhol caiu de 43,6% para 38%. A diferença fica ainda mais gritante quando se observam os aprovados do concurso. No último vestibular, 75,6% dos aprovados haviam realizado a prova de inglês e apenas 23,3% de espanhol, sendo a maior diferença já registrada pela Copeve.

A escolha do idioma tem uma relação com o tipo de escola frequentada no ensino básico. Na última edição do vestibular, entre os candidatos que optaram por espanhol, 50,7% declararam que concluíram os estudos de nível fundamental em instituições públicas, ao passo que 38,4% disseram ter estudado em particulares. Já entre os que escolheram a prova de inglês, a proporção praticamente se inverte: 58,4% estudaram no ensino particular e apenas 30,9% no público.

Segundo informações da Pró-Reitoria de Graduação (ProGrad), o ensino particular é hoje responsável pelo preenchimento de 65% das vagas oferecidas pela UFMG. Isso significa que os estudantes provenientes da rede privada, em sua maioria realizadores da prova no idioma inglês, são mais bem sucedidos por fatores que a própria ProGrad explica. “Os alunos do ensino público enfrentam um caminho mais difícil para chegar à universidade. As condições de estudo são inferiores e muitos deles ainda enfrentam dificuldades financeiras que influenciam na vida como um todo”, diz o pró-reitor Mauro Braga. Não só dificuldades financeiras, mas também temporais, no caso daqueles que precisam trabalhar e dispõe de menos tempo para o estudo. Jovens que trabalham e estudam são, geralmente, alunos de escola pública e este é um fator que também demonstra as condições inferiores dos candidatos que optam pelo espanhol. Desses, 56,1% afirmam que nunca trabalharam, contra 70,3% dos que escolheram inglês.

Os dados apontam que tem maior chance de sucesso o candidato que opta pela realização da prova de inglês. Por outro lado, fica a questão no ar: o que causa a tendência do estudante da rede pública escolher o espanhol? Existe alguma relação com a precariedade do ensino? Candidatos que optam pelo espanhol realmente o fazem porque, em alguma medida, dominam o idioma ou estão apensas escolhendo aquele que é mais parecido com o português? A legislação brasileira prevê a obrigatoriedade do estudo de uma língua estrangeira no ensino médio. A grande maioria das escolas decide pelo inglês. Contudo, por algum motivo, há estudantes de escola pública que não estão se sentindo confiantes para optar pela língua que estudaram na escola. Já os alunos do ensino particular, por sua vez, são geralmente dotados de uma condição socioeconômica mais privilegiada, que os permitem recorrer aos cursos de idiomas, geralmente para aprimorar o inglês.

Cursos de idiomas fazem a diferença

Uma conclusão precipitada dos dados da Copeve poderia levar a crer o ensino de língua estrangeira é mais qualificado nas escolas particulares. Não é bem assim. Em 2002, os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ministério da Educação (MEC) criticaram o ensino de línguas estrangeiras no país, não só na rede pública, mas também na particular. Segundo o Ministério, o enfoque na memorização de regras não possibilitava o aprendizado adequado dos idiomas. Diante da situação, o então deputado federal Evilásio Farias (PSB-SP) chegou a propor o fim da obrigatoriedade das provas de língua estrangeira nos vestibulares. "O poder público não tem o direito de exigir das pessoas esse conhecimento, se não as capacitou para isso", dizia Evilásio à Folha de São Paulo de 01 de agosto de 2002.

Luziana Lanna, proprietária de uma rede de cursos particulares de língua estrangeira, acredita que a situação de 2002 não se alterou. Sua explicação se baseia no sucesso do seu empreendimento. “A única razão para que o aluno continue a procurar o curso livre de inglês está na dificuldade de se aprender o idioma estudando somente na escola regular”, diz ela.

O inglês predomina

No Colégio Promove, em Belo Horizonte, os estudantes podem optar por aprender inglês ou espanhol. Segundo a diretora Rúbia Fantauzzi, a grande maioria opta pelo inglês. No Curso de Idiomas Luziana Lanna, 70% dos estudantes são alunos da língua inglesa. Segundo ela, a procura reflete as possibilidades de intercâmbio, pois ninguém estuda algo que não terá aplicabilidade prática. Ela dá um exemplo: “A procura pelo francês cresceu muito nos últimos dois anos. A França tem se desenvolvido muito em vários setores da Medicina, atraindo médicos e profissionais de saúde para suas universidades. É impressionante a quantidade de alunos interessados em fazer estágio no país”. No caso do inglês, a escolha então seria motivada pela possibilidade de se comunicar nas mais diversas partes do mundo.

Juarez Guimarães, cientista político da UFMG, avalia que o domínio do inglês foi um processo histórico. “A principal potência do século XIX foi a Inglaterra. No século XX, foram os EUA. As demais nações buscaram aprender a língua inglesa para facilitar relações sociais e políticas com estes países. Quando se iniciou a internacionalização, o inglês era a única língua que possibilitava a comunicação dos povos, pois o idioma era de conhecimento da elite de diversos países.”

Juarez, porém, acredita que o espanhol tende a ganhar mais espaço. “No último período, o Brasil foi muito dependente das políticas norte-americanas e os efeitos disso ainda são sentidos”, diz. Mas a situação estaria começando a mudar. O cientista político salienta que estamos vivendo um processo de integração latinoamericana, a partir do fortalecimento do Mercosul que prevê inclusive a criação de um parlamento entre os países-membros. Este fato estaria criando uma agenda política comum entre os povos da América Latina, fomentando o intercâmbio. Por isso, Juarez prevê que, em breve, surgirá uma nova demanda pelo ensino do idioma espanhol.

Tentativas de superar a dominação da língua inglesa não faltam. A mais ousada foi a criação da língua Esperanto, recomendada pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) para ser o idioma internacional. Desde 1985, vigora uma resolução do órgão que recomenda aos países-membros "instigar a introdução de programas de estudo sobre o problema da língua e sobre o Esperanto em suas escolas e suas instituições de ensino superior". Entretanto, pouco foi feito até então, e a grande maioria da população sequer sabe da existência do idioma. Pedro Cavalheiro, presidente da Liga Brasileira de Esperanto, diz que a gramática e a fonética dessa língua que se pretende internacional foi pensada para ser de fácil aprendizado em todo o mundo. Para ele, o inglês tem características opostas e só a imposição cultural justifica a manutenção do seu status de língua internacional. “Do ponto de vista lingüístico, o inglês é um problema, pois dificulta a comunicação entre os povos. Suas vogais são pronunciadas de formas muito diferentes. Só a letra ‘a’ tem 12 sons. Por isso é uma língua mais vulnerável a sotaques e a distorção é inevitável. Tanto é que cada povo fala o inglês de uma maneira particular”, diz Pedro Cavalheiro.

 

comments powered by Disqus

 

O EDITOR


Léo Rodrigues

Repórter da Agência Brasil, formado em Comunicação Social pela UFMG em 2010. Ex-jornalista da TV Brasil e do Portal EBC, onde também atuou como editor de esportes. Diretor de documentários cujo foco de interesse é a cultura popular, entre eles os longas "Aboiador de Violas" e "Pra fazer carnaval mais uma vez". Saiba mais

 

O BLOG


O trabalho do jornalista nunca é isento. Trata-se de um exercício constante de escolhas. Para onde apontar a lupa? De que ângulo posicionaremos a lupa? Este espaço surge a partir do interesse do editor em concentrar o seu acervo de produções jornalísticas e, ao mesmo tempo, propor coberturas e reflexões sobre comunicação, sociedade, cultura e esporte. Entenda melhor a proposta

 

QUEM É O EDITOR | PROPOSTA DO BLOG | MAPA DO BLOG | AVISE ERROS | CONTATO

Alguns direitos reservados
Todo o conteúdo deste site está publicado sob a Licença Creative Commons Atribuição 3.0 Brasil exceto quando especificado em contrário.
Permitida a cópia, redistribuição e alterações desde que se conceda os devidos créditos e mencione caso alguma adaptação tenha sido realizada.
Saiba mais como funciona a Licença Creative Commons Atribuição 3.0 Brasil