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Choro e ranger de dentes

 
Léo Rodrigues | 08/12/2008 Entrevista publicada pelo jornal Boletim, da UFMG

Pesquisa da Odontologia confirma que fatores emocionais estão associados ao bruxismo

A escova de dente e o fio dental podem não ser suficientes para manter a boca saudável. Mesmo tomando cuidados diários, a saúde bucal depende do combate a inimigos ainda mais complexos: a ansiedade e a raiva. Estudo da professora Júnia Serra-Negra, da Faculdade de Odontologia da UFMG, aponta que a dificuldade de lidar com esses dois sentimentos é uma das causas do bruxismo, ato de ranger os dentes durante o sono. O hábito pode provocar desgates nos dentes, dores de cabeça e nos músculos, problemas na gengiva e nas articulações e, em casos mais graves, até perdas dentais.

A pesquisa que ela desenvolve teve origem em sua tese de doutorado, defendida há dois anos. Até então, grupos de pesquisa atribuíam ao bruxismo uma causa puramente mecânica. Como o hábito, em muitos casos, tem origem na infância, tais grupos associavam seu início à troca da dentição, quando se alteram a estrutura e a altura da arcada dentária. Durante o processo, a coexistência de dentes grandes e pequenos gera uma instabilidade que pode levar ao bruxismo, uma vez que a criança tenta constantemente encontrar uma posição mais confortável. A professora Júnia Serra-Negra considerava essa explicação simplista e insuficiente, suspeitando da influência de fatores emocionais e psicológicos.

Em parceria com o Laboratório de Avaliação das Diferenças Individuais (Ladi) do Departamento de Psicologia da UFMG, a professora comprovou cientificamente a sua desconfiança. Foram realizados testes psicológicos em 657 crianças de 7 a 11 anos e, paralelamente, examinado o quadro clínico dos dentes e aplicados questionários entre os pais. O cruzamento das informações demonstrou que os portadores de bruxismo tinham perfil semelhante: eram muito responsáveis, perfeccionistas e apresentavam alto grau de neuroticismo. “O excesso de responsabilidade e perfeccionismo em uma criança está diretamente ligado à forma como ela lida com a ansiedade e a raiva. Pode ser que guarde a raiva para si em vez de manifestá-la. A tensão acumulada é liberada pelo bruxismo”, explica a professora.

Obrigação e prazer

A pesquisa procurou identificar as atividades desenvolvidas pelas crianças em seu dia-a-dia. Como o estudo envolveu garotos de diversas classes sociais, percebeu-se que o tipo de tarefa é decisivo no desenvolvimento de bruxismo. As crianças que realizam atividades que não despertam prazer são mais propensas ao fenômeno. Junia Serra-Negra identificou, por exemplo, um maior percentual de portadoras de bruxismo entre aquelas que precisavam contribuir com as tarefas domésticas. Nas famílias de classe alta, as crianças tendem a realizar um conjunto de atividades prazerosas como aulas artísticas e esportivas, durante as quais o organismo gera serotonina e dopamina, substâncias que ajudam a aliviar a tensão que poderia ser descarregada à noite. “Nessas famílias, o bruxismo foi observado em algumas crianças que realizavam atividades artísticas e esportivas, não por prazer, mas porque eram obrigadas”, relata Júnia Serra-Negra.

A relação das crianças com os aparelhos eletrônicos também pode ocasionar o bruxismo. Dormir em ambientes com luz acesa ou televisão ligada influencia no desenvolvimento do hábito. Os estímulos luminosos e sonoros interferem no ciclo do sono. “Às vezes, a criança acumulou muita tensão durante o dia, e um simples barulho da TV pode funcionar como gatilho para desencadear o rangimento dos dentes”, explica Júnia Serra-Negra. Também foi constatado o bruxismo em crianças que exageram no uso do computador antes de dormir, pois o cérebro fica muito excitado e demora a acalmar.

No momento, Júnia Serra-Negra pesquisa, por meio da aplicação de 200 questionários, o grau de conhecimento dos pais sobre o bruxismo. As conclusões preliminares surpreenderam a professora. A maioria dos pais sabe o que é, mas muitos deles atribuem o fenômeno aos maus espíritos, numa clara confusão sobre o sentido dos termos bruxismo e bruxaria. A semelhança é acidental. A palavra bruxismo vem do grego e significa atrito. Mesmo no inglês, em que bruxa é witch, o hábito de ranger os dentes é denominado bruxism.

Responsabilidade perigosa

O estudo da professora Júnia Serra-Negra é respaldado por informações de pesquisa de personalidade infantil realizada no Laboratório de Avaliação das Diferenças Individuais (Ladi) do Departamento de Psicologia da Fafich, coordenado pela professora Carmen Flores. Em 2002, o Ladi iniciou estudo longitudinal com 657 crianças de 7 a 11 anos. Até 2012, as mesmas crianças serão submetidas, a cada dois anos, a testes psicológicos.

Segundo a professora Carmen, o neuroticismo e o grau de responsabilidade, fatores que integram a personalidade, interferem na saúde do indivíduo. Ela explica que todas as pessoas possuem neuroticismo, umas mais, outras menos. Os que apresentam maior grau são mais instáveis emocionalmente. Já os indivíduos muito responsáveis são excessivamente preocupados e sofrem muito quando não conseguem cumprir uma tarefa.

 

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O EDITOR


Léo Rodrigues

Repórter da Agência Brasil, formado em Comunicação Social pela UFMG em 2010. Ex-jornalista da TV Brasil e do Portal EBC, onde também atuou como editor de esportes. Diretor de documentários cujo foco de interesse é a cultura popular, entre eles os longas "Aboiador de Violas" e "Pra fazer carnaval mais uma vez". Saiba mais

 

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