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Amizade estremecida

 
Léo Rodrigues | 20/04/2009 Notícia publicada pelo jornal Boletim, da UFMG

Ao analisar 60 cães de BH, tese constata que a maioria dos proprietários não tem favorecido o bem-estar de seu “melhor amigo”

Você tem cuidado bem de seu cão? O modo de vida que você proporciona a ele favorece o seu bem-estar? Tese de doutorado de Sheila Regina Andrade Ferreira, defendida em 5 de março na Escola de Veterinária da UFMG, demonstra que muitos proprietários de cães podem estar equivocados quando respondem positivamente a perguntas como essas. Sua pesquisa constatou que o perfil progressista dos donos não é suficiente para promover o bem-estar de suas crias.

Variáveis físicas, biológicas e psicológicas influem no bem-estar canino

Variáveis físicas, biológicas e psicológicas são fatores que influenciam no bem-estar canino | Foto: Luiza Lages

Por meio de inquéritos e observações, a tese analisou as condições de criação de 60 cães, que vivem em residências de variadas classes sociais. O questionário aplicado aos proprietários apontou que 55 deles poderiam ser caracterizados como progressistas – pessoas abertas a mudanças e à incorporação de novos conhecimentos – e apenas cinco como conservadores. Entretanto, o estudo constatou que o bem-estar adequado era desfrutado por apenas 43,3% da população canina. “Considerei que o cão experimenta bem-estar adequado quando reúne três características: é manso, tranquilo e apresenta condição corporal ideal, isto é, não está desnutrido nem sobrealimentado”, explica Sheila Andrade.

A pesquisadora ensaia uma justificativa para explicar como o perfil aparentemente favorável dos proprietários nem sempre redunda no bem-estar canino. Segundo ela, mesmo que muitas pessoas concordem e defendam a tomada de atitudes positivas para com os animais, elas podem assumir uma postura de espectadores diante dos desafios relativos à criação do cão. “Há pessoas com dificuldades para transitar do conhecimento para a ação, evidenciando um comportamento típico de observador que jamais chega a ser protagonista. Quando identifica o problema, não se envolve, subestima-o e aponta algum responsável”, alerta.

Essa atitude de passividade é, segundo Sheila Andrade, adquirida naturalmente. Romper com a condição de espectador dependeria de um senso de responsabilidade que estimula o sujeito a empenhar-se de forma crítica diante da realidade. Assim, a conscientização do proprietário de seu papel interventor seria a primeira atitude a contribuir para uma melhor qualidade de vida do animal. “A promoção do bem-estar do cão não é simplesmente querer, concordar ou discordar. É uma decisão vigorosa, que precisa de conhecimentos específicos periodicamente confrontados e realimentados”, acrescenta a pesquisadora.

Individualidade e cultura

O resultado do estudo apontou que 83,3% dos cães investigados eram mansos, 90%, tranquilos e 60% tinham condição corporal ideal. Sheila Andrade cruzou tais dados com os 43,3% dos animais que reúnem as três características simultaneamente. Ela percebeu que, dentre os indicadores utilizados, a condição corporal e o estado de tranquilidade mostraram-se mais apropriados para avaliar o bem-estar. A agressividade apresentou-se como indicador menos preciso. Entre os 56,7% de cães que não experimentam o bem-estar adequado, verificou-se um equilíbrio de animais mansos e bravos.

Para Sheila Andrade, suas conclusões oferecem informações clínicas para profissionais e acadêmicos que lidam com animais. “Nossa proposta era aprimorar a capacidade de identificar possíveis causas de sofrimento dos cães, e isso tem valor inegável para os animais e para os proprietários”, declara a pesquisadora. Segundo ela, para compreender melhor os cães, a comunidade científica precisa concebê-los como indivíduos. Assim, a raça não pode ser o único diferencial de um cachorro. Há variações físicas, biológicas e psicológicas associadas a aspectos culturais, hábitos alimentares e estilo de vida do proprietário.

O lugar pouco importa

Uma das conclusões da pesquisa derruba um mito do senso comum: o tipo de residência não é determinante para o bem-estar animal. Não importa onde se vive, mas como se vive.

Mas o mesmo não se pode dizer do ambiente onde ele dorme. O cão que entra e passa a noite no interior da residência tem mais possibilidade de não alcançar o bem-estar adequado. Segundo Sheila Andrade, a maior proximidade do animal com os seus donos pode causar-lhe problemas psicossociais. “Pessoas privadas de carinho e afeto podem deslocar suas necessidades para o cão. Este deslocamento com conotação patológica traduz-se pela preocupação pouco comedida com o animal”, explica a pesquisadora.

A convivência com outros animais de estimação também contribui para o bem-estar. Embora o tipo de análise empregado na pesquisa não permita explorar tal correlação, Sheila arrisca uma explicação. Segundo ela, um proprietário que tem mais de um animal de estimação provavelmente preocupa-se em enriquecer a vida de seu cão com um companheiro ou, simplesmente, gosta de interagir e desfrutar da companhia de vários animais. A convivência simultânea com mais bichos, diz ela, talvez evite o apego exagerado do dono ao seu cão.

 

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Léo Rodrigues

Repórter da Agência Brasil, formado em Comunicação Social pela UFMG em 2010. Ex-jornalista da TV Brasil e do Portal EBC, onde também atuou como editor de esportes. Diretor de documentários cujo foco de interesse é a cultura popular, entre eles os longas "Aboiador de Violas" e "Pra fazer carnaval mais uma vez". Saiba mais

 

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