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A paternidade na UTI neonatal

 
Léo Rodrigues | 06/07/2009 Notícia publicada pelo jornal Boletim, da UFMG

Dissertação analisa o lugar e o drama dos pais de filhos prematuros

O nascimento de um bebê prematuro é sempre acompanhado de uma dramática apreensão familiar. Mas como a saúde do frágil recém-nascido é monitorada e acompanhada pelos médicos, a família pouco pode fazer, a não ser torcer pela sobrevivência. Assim, a preocupação dos parentes acaba voltando-se para a mãe, que recebe muitos carinhos e cuidados no pós-parto. Mas e o pai? Qual o seu lugar nesse cenário? A pergunta que poucos fazem orientou a dissertação A paternidade na UTI neonatal – o pai prematuro, defendida na Faculdade de Medicina da UFMG em 1º de junho.

Maria de Lourdes: necessidade de diálogo entre os hospitais e os pais

Maria de Lourdes: necessidade de diálogo entre os hospitais e os pais

Com formação em psicanálise, a autora, Maria de Lourdes de Melo Baêta, relata que o estudo foi motivado por uma questão. “Os hospitais costumam oferecer acompanhamento psicológico às mães. Entretanto, não manifestam a mesma preocupação com os pais. A relação deles com o hospital não é tão forte, pois logo voltam a trabalhar e não estão presentes o tempo todo. Fiquei me indagando qual a ação efetiva do pai nesta situação”, afirma a pesquisadora.

Na ocasião do nascimento do bebê prematuro, a autoridade maior, inevitavelmente, é o médico. Para saber a reação adotada diante desse contexto, a pesquisadora buscou obter respostas sob a perspectiva dos próprios pais. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas, que abordaram questões como a experiência de tornar-se pai, a relação com a mulher, a paternidade na UTI neonatal, a função desempenhada pelos progenitores e o posicionamento deles em relação ao discurso dos profissionais do hospital.

Foram 10 entrevistados e as respostas revelaram alguns pontos de convergência. Um deles é o resgate de experiências vivenciadas na família. Ao discorrerem sobre como pretendiam se relacionar com seus filhos, eles geralmente evocavam a educação que receberam de seu pai, pontuando o que fariam igual ou diferente. “As primeiras vivências das pessoas são marcantes e criam raízes na mente delas. Embora as respostas dos entrevistados variem, todas elas trazem a marca das experiências passadas”, comenta Maria de Lourdes.

Outro ponto de convergência é o sentimento denominado pela pesquisadora de “estranho familiar”. Se, de um lado, os pais afirmavam nas entrevistas que a chegada de um filho era um acontecimento normal e esperado, por outro, admitiam que o momento era um divisor de águas, um choque, uma experiência estranha.

“Desmontei”

Segundo Maria de Lourdes, a situação estudada é de extremo interesse para o método psicanalítico. “A psicanálise cuida de impasses e traumas. Dificilmente alguém recorre a uma análise se não estiver diante de um problema delicado. E ter o filho numa UTI neonatal é extremamente traumático”, afirma.

Ela conta que, nas entrevistas, o abatimento dos pais era visível. Eles utilizaram expressões como “desmontei”, “o mundo veio abaixo” e “arrasado”. Entretanto, também ficou perceptível, na fala de todos eles, a crença na necessidade de não extravasar as emoções para transmitir força à mulher. “Segurar a onda” e “ter um ar positivo” eram as expressões de ordem. “Nesse contexto, a preocupação passa para a figura da mulher. A função materna é desarticulada com a transferência da criança para a incubadora. Isso é muito doloroso para a mãe, já que é com ela que o bebê mantém o primeiro contato. Já o pai chega na criança por intermédio da mãe. Daí surge o trauma paterno. Sem a mediação da função materna, o pai fica sem saber como vai alcançar o bebê”, analisa Maria de Lourdes.

Um fato chamou a atenção da pesquisadora: o desejo de falar manisfestado pelos pais. As entrevistas fluíam, o que permitiu a Maria de Lourdes pintar um retrato da angústia daqueles homens: “Na UTI, os pais, obrigatoriamente, compartilham a função paterna com os especialistas, fazendo com que os discursos médico e da família se entrelacem. Ainda que sejam de naturezas distintas, isso pode gerar muitos problemas”, afirma. A saída, segundo ela, é abrir frentes de diálogo com os pais. “A UTI neonatal não pode ser uma clínica só do bebê e da mãe. Embora o objetivo seja salvar a vida do recém-nascido, é uma clínica da família”, defende Maria de Lourdes.

 

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Léo Rodrigues

Repórter da Agência Brasil, formado em Comunicação Social pela UFMG em 2010. Ex-jornalista da TV Brasil e do Portal EBC, onde também atuou como editor de esportes. Diretor de documentários cujo foco de interesse é a cultura popular, entre eles os longas "Aboiador de Violas" e "Pra fazer carnaval mais uma vez". Saiba mais

 

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