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Quando os médicos passam por um exame decisivo

 
Léo Rodrigues | 01/03/2012 Notícia publicada pelo jornal Saúde Informa, da Faculdade de Medicina da UFMG

Concurso de ingresso na residência médica coloca à prova a qualidade da formação acadêmica. Cursinhos preparatórios podem ser dispensáveis

O período de formatura é sempre repleto de comemorações por mais uma etapa concluída. Alguns novos profissionais chegam a prolongar os festejos com uma viagem ou um período de descanso. No entanto, isso não é muito comum entre os recém-formados do curso de Medicina. É que muitos deles logo se debruçam mais uma vez sobre os livros, a fim de se prepararem para o novo desafio que se aproxima: o concurso para ingressar na residência médica.

Residentes participam de atividade no Hospital das Clínicas da UFMG

Residentes participam de atividade no Hospital das Clínicas da UFMG | Foto: Bruna Carvalho / Medicina UFMG

Para lidar com a ansiedade comum desse período, organizar um planejamento de estudos, tomando por base as regras da seleção e o tipo de prova, pode ajudar. Há três anos, a Comissão Estadual de Residência Médica de Minas Gerais (Cerem-MG) estabeleceu um processo unificado no estado, o que resolveu o problema de sobreposição das datas de provas. “Hoje, o estudante faz apenas uma avaliação e, no ato de inscrição, define suas instituições prioritárias”, explica o coordenador da residência médica do Hospital das Clínicas (HC/UFMG), Sérgio Alexandre, que também integra a comissão elaboradora das provas.

De acordo com a resolução nº 008/04 da Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM), o processo deve ser composto de prova teórica, que corresponde a 90% da avaliação, além de análise e arguição de currículo, correspondente aos outros 10%. As questões elaboradas pelo Cerem-MG geralmente envolvem a discussão de um caso clínico. “É uma prova inteligente, que cobra mais raciocínio. Tem tudo a ver com a nossa formação”, avalia Gabriela Paixão, recém-formada na Faculdade de Medicina da UFMG e aprovada em 3º lugar na residência em Clínica Médica do HC/UFMG, na última edição do concurso.

Precisa de cursinho?

Para o coordenador do curso de Medicina da UFMG, Fernando Reis, a boa qualidade do ensino faz com que os cursinhos se tornem desnecessários, embora seja aceitável que eles existam como forma opcional do aluno conduzir seus estudos. “Não pautamos nosso ensino pelo conteúdo da prova do concurso de residência ou pela escolha da especialidade do aluno. Ensinamos os conhecimentos importantes para a atividade de um médico generalista e consideramos que, assim, ele estará apto a se preparar para a avaliação”, afirma.

Gabriela Paixão foi aprovada em 3º lugar na residência, sem cursinhoSérgio Alexandre, coordenador da residência do HC, também considera o cursinho dispensável. “É inegável que eles possuem um material didático de boa qualidade, mas a maioria deles não ensina Medicina. Ensinam apenas a fazer prova. Forçam uma memorização momentânea que não contribui para a fixação dos conhecimentos”, critica. Para ele, como a prova é baseada em casos clínicos, a experiência do internato é um dos melhores momentos para a preparação. “Os estudantes que negligenciam o internato dos últimos períodos para fazer o cursinho estão cometendo um equívoco tremendo”, argumenta.

Escolha profissional

O internato pode contribuir não apenas para a preparação, mas também na escolha da especialização. “A gente passa por várias especialidades e recebe influência de vários professores. Eu tive muita dúvida ao longo do curso e o internato de Clínica Médica foi determinante para fazer uma opção segura”, conta Gabriela Paixão. São muitas especialidades e algumas delas, como Oftalmologia e Otorrinolaringologia, são estudadas por um período mais reduzido. “Acho que, nessas áreas, o aluno tem que ter um interesse prévio e cursar as optativas. Acho improvável que, em pouco tempo de conhecimento, o estudante irá se interessar em seguir numa especialidade”, diz.

Segundo o professor Fernando Reis, não existe um processo de orientação formal das escolhas, mas há estruturas que podem ajudar. “A Faculdade conta com instâncias de apoio como o Núcleo de Apoio Psicopedagógico aos Estudantes (Napem) e a Assessoria de Escuta Acadêmica. Nós temos observado que os alunos baseiam suas opções nas experiências de cada estágio e no exemplo dos professores. Nos internatos, eles entram em contato com diversas especialidades e, inclusive, com residentes. Observando de perto o trabalho deles, poderão consolidar melhor uma decisão”, explica.

Já Sérgio Alexandre tem pouca preocupação quanto ao processo de escolha. “A julgar pelos baixos índices de desistência, acredito que são poucos os recém-formados ainda em dúvida quanto à área que querem aprofundar. No ano passado, de 407 bolsistas do HC/UFMG, tivemos apenas 10 desistentes, o que equivale a menos de 3%”, calcula.

O momento certo

Na opinião de Fernando Reis não existe um momento ideal para o ingresso na residência médica. Depende da área e do plano de carreira. “Ter uma experiência como médico generalista na Estratégia Saúde da Família (ESF), por exemplo, pode ter grande valor posterior para a especialização do aluno. Mas não é obrigatório”, avalia.

Por outro lado, Sérgio Alexandre tem receio quanto a essa possibilidade. “Conheço casos de alunos com grande potencial para determinada área que decidiram trabalhar um tempo antes de ingressarem na residência médica. Eles criaram uma boa condição financeira e perderam a motivação em se especializar. Por isso, acho que deve ser feita a escolha quando se forma. Se a opção é se aprofundar em uma área, por que deixar para depois?”, questiona ele, acrescentando que as matérias estão mais frescas logo após a formatura.

A formalização institucional da residência médica do Hospital das Clínicas da UFMG se deu entre 1959 e 1971

A formalização institucional da residência médica do Hospital das Clínicas da UFMG se deu entre 1959 e 1971 | Foto: Acervo / Medicina UFMG

Um pouco de história

A médica Nathayl Elisa Mucci é autora da dissertação de mestrado O início da residência médica no Hospital das Clínicas da UFMG, defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina da UFMG. Segundo a pesquisa, a formalização institucional da residência do HC/UFMG se deu entre 1959 e 1971. Coincidiu com um período de turbulência político-cultural, no qual a juventude levantava sua voz, transgredia os valores e reivindicava melhorias estruturais como a ampliação do acesso ao ensino.

O coordenador da residência no HC, Sérgio Alexandre, ressalta que, antigamente, existia a figura do ‘‘cupincha’’, o estudante que se interessava em acompanhar voluntariamente o cirurgião ou um clínico. Ele adquiria conhecimento e experiência, mas era uma iniciativa independente, que não resultava em título nenhum. Progressivamente, a prática do ‘‘cupincha’’ foi sendo formalizada. Os médicos do HC/UFMG observavam alunos que tinham potencial e afinidade com determinada área e os indicavam como pupilos. O interesse foi aumentando e o processo seletivo acabou se tornando inevitável, cada hospital com as suas próprias regras. Em 1977, a residência médica foi finalmente regulamentada pelo Ministério da Educação, com o decreto nº 80.281.

 

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O EDITOR


Léo Rodrigues

Repórter da Agência Brasil, formado em Comunicação Social pela UFMG em 2010. Ex-jornalista da TV Brasil e do Portal EBC, onde também atuou como editor de esportes. Diretor de documentários cujo foco de interesse é a cultura popular, entre eles os longas "Aboiador de Violas" e "Pra fazer carnaval mais uma vez". Saiba mais

 

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