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"Direito do indígena ainda precisa ser plenamente garantido", diz Joênia Wapixana

 
Léo Rodrigues | 06/03/2013 - 14:52 Entrevista publicada pelo Portal EBC

Confira a entrevista da primeira advogada indígena do país

No mês passado, Joênia Wapixana se tornou a primeira presidenta da recém-criada Comissão Nacional de Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas

Joênia Wapixana se tornou presidenta da Comissão Nacional de Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas| Foto: Valter Campanato / Agência Brasil

Joênia Batista de Carvalho, ou simplesmente Joênia Wapixana, é uma índia guerreira. Mas suas batalhas não são travadas utilizando o arco e a flecha. A sua arma é a palavra, a lei e a Constituição Federal. Ela é a primeira advogada indígena do Brasil e se dedica a causas que envolvem o seu próprio povo.

Quando formou-se em 1997 pela Universidade Federal de Roraima (UFRR), Joênia iniciou um trajetória de constantes quebras de paradigmas. No mês passado, ela se tornou a primeira presidenta da recém-criada Comissão Nacional de Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas (CNDDPI) da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Para a advogada, o judiciário precisa se esforçar em compreender a cultura indígena. Exatamente por isso, ela não abre mão dos elementos culturais do seu povo. Em 2008, Joênia escreveu mais uma vez seu nome na história: a primeira advogada indígena a defender oralmente uma causa no Supremo Tribunal Federal (STF). Ela se apresentou para o julgamento da demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol vestindo uma bata e trazendo no rosto uma pintura que simboliza "força e lealdade". Num ambiente onde ministros poliglotas apresentam fluência em inglês, francês ou alemão, os presentes foram surpreendidos por uma saudação em wapixana.

VEJA TAMBÉM:

  • Especial do Dia Internacional da Mulher: as pioneiras do Brasil
  • Em uma breve entrevista para o Portal EBC, Joênia falou sobre a importância de sua trajetória e a luta pelo reconhecimento dos direitos dos indígenas:

    EBC: Você é a primeira advogada indígena do Brasil. O que isso significa para você?

    JW: Significa que os povos indígenas estão ocupando espaços e na área jurídica isso é fundamental. Existem ainda muitos casos de conflitos agrários, opressão às mulheres indígenas, exploração da mão de obra, etc. Muitas vezes, os julgamentos ocorrem envolvendo somente atores que desconhecem a nossa cultura. Aos poucos, nós vamos conseguindo apresentar nossas pautas junto ao judiciário. Em 1997, eu me tornei a primeira advogada indígena, mas hoje já somos mais de 20 em todo o Brasil. Ainda é pouco, mas demonstra um interesse da comunidade indígena.

    EBC: Você representa a luta pelos direitos indígenas e, ao mesmo tempo, está bastante integrada à sociedade não-indígena. Como conciliar tradições tão diferentes?

    JW: O contato com minha família e meu povo é constante. Não importa se estou numa metrópole ou no interior. Hoje vivo em Boavista, em Rondônia. É uma capital pequena. Mas a cultura não é um lugar territorial. Você carrega consigo as suas crenças, os seus costumes e as suas tradições. É por isso que quando me deparo com um processo judicial, eu o interpreto segundo a visão da minha cultura. O respeito à diferença e a preservação da cultura indígena são princípios presentes na Constituição. Mas ainda há um longo caminho para que o direito do indígena seja plenamente garantido. A justiça tem se guiado por uma noção ocidental. A visão da cultura indígena sobre a posse da terra, por exemplo, não tem sido considerada.

    EBC: O que a mulher indígena pode comemorar neste Dia Internacional da Mulher?

    JW: Acho que é um dia mais para refletir do que para comemorar. É uma oportunidade para compartilhamos com a sociedade as questões ligadas à mulher indígena. O panorama já não é o mesmo de anos atrás. As perspectivas são melhores. O próprio fato de você estar me concedendo esse espaço demonstra um reconhecimento do povo indígena. Não faz muito tempo que os meios de comunicação nos ignoravam, como se a história do Brasil tivesse sido construída somente a partir de dois povos, sem a participação do índio. Esse reconhecimento foi obtido através da determinação do povo indígena e também da mulher indígena. Mas ainda não é um reconhecimento pleno e é por isso que precisamos refletir sobre essa data.

     

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    O EDITOR


    Léo Rodrigues

    Repórter da Agência Brasil, formado em Comunicação Social pela UFMG em 2010. Ex-jornalista da TV Brasil e do Portal EBC, onde também atuou como editor de esportes. Diretor de documentários cujo foco de interesse é a cultura popular, entre eles os longas "Aboiador de Violas" e "Pra fazer carnaval mais uma vez". Saiba mais

     

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