Portfólio do editor em

Belo Horizonte,

Mapa do Blog | Avise Erros | Contato

COMUNICAÇÃO | SOCIEDADE | CULTURA | ESPORTE

 

SOCIEDADE


Movimentos sociais Compartilhar

Artigo: Pra onde caminham as manifestações?

 
Léo Rodrigues | 18/06/2013 Artigo publicado na plataforma Brasilianas.org

O Brasil é destaque no noticiário internacional. Nesta segunda-feira (17/06), cerca de 250 mil cidadãos saíram às ruas de diversas capitais do país para apresentar os seus anseios. A movimentação, construída de forma espontânea através da internet, nos coloca de vez na rota dos novos protestos sociais que emergem da utilização do potencial democrático das novas tecnologias. Assim como na "primavera árabe", a população decidiu levar para as ruas a indignação que já era manifesta nas redes sociais. Mas que anseios são esses? E o que fez o grito virtual se transformar em grito real?

Em Brasília, protestos na segunda foram pacíficos e a Polícia se comportou como deve

Em Brasília, protestos na segunda foram pacíficos e a Polícia se comportou como deve | Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

Não é difícil perceber que três bandeiras convergiram inicialmente na formação da onda de manifestações. No dia 12 de junho, cidadãos paulistas saíram às ruas na primeira de uma série de atos organizados pelo Movimento Passe Livre (MPL). No dia seguinte, a rua Augusta se transformou num cenário de guerra, com policiais despreparados atirando a esmo, em jovens, adultos, idosos, jornalistas, enfim, a quem surgisse no caminho.

A ação policial, sem dúvida, se transformou em um catalisador da indignação nacional. E assim, os já planejados protestos contra os gastos da Copa do Mundo se tornaram de forma automática também numa manifestação em solidariedade ao povo paulista. É possível que, sem a repressão da polícia de Alckmin, talvez a força desse movimento nacional que agora toma as ruas fosse bem inferior.

As manifestações diante da Copa eram previsíveis. Setores da imprensa conservadora tentaram deslegitimar os protestos, sob o argumento de que "agora não adianta mais, pois não dá para voltar atrás". Mas a onda de manifestações segue uma lógica histórica: quando o centro das atenções se converge para determinado local, as reivindicações da população também ganham em evidência. E é por isso que, nesses momentos, mais adeptos se somam às manifestações.

Essas pessoas, muitas delas apaixonadas por futebol e a favor da realização da Copa (assim como eu), protestam contra os gastos exorbitantes de um evento que suga muito dinheiro público e deixa pouco retorno social ao país. A estrutura melhora, é fato, mas sem um planejamento inteligente e sem a transparência necessária.

Constrói-se um estádio de R$1 bilhão para mais de 70 mil espectadores no Distrito Federal, onde o campeonato local reúne cerca de 800 pessoas por jogo. Enquanto 9 em 10 engenheiros consideram que o VLT é um meio de transporte mais adequado, menos poluente e mais barato para as capitais brasileiras, as Prefeituras insistem no BRT. É motivo de indignação também a forma como as ordens da Fifa se sublevam sobre a própria Constituição, proibindo manifestações, ao mesmo tempo em que buscam artificializar o país, escondendo seus próprios elementos culturais: o Mineirão não pode vender feijão tropeiro e o acarajé está banido da Fonte Nova.

Essas são apenas algumas pinceladas dos problemas visíveis na organização desses grandes eventos esportivos. A Copa do legado social se transformou na Copa das empreiteiras e dos interesses obscuros. Não há transparência nos gastos públicos.

Ainda assim, é difícil imaginar que sem os acontecimentos de São Paulo, as ruas seriam tomadas da forma como foi. A repressão policial causou indignação nacional e, com o aumento dos tiros de bala borracha em outras capitais, o povo decidiu sair às ruas. Assim, foram levantadas, pelo menos inicialmente, três bandeiras claras: pela melhoria e redução do preço do transporte público, contra os gastos exorbitantes da Copa do Mundo (e consequentemente da Copa das Confederações), e contra a repressão policial.

Por uma nova polícia

É óbvio que qualquer manifestação onde se reúna milhares de pessoas trará a possibilidade de que um ou outro mais radical se exalte em suas ações e cometa atos violentos. São esses exemplos que a imprensa e os políticos conservadores utilizam para taxar manifestantes de "vândalos" e "baderneiros". No entanto, é preciso distinguir de forma racional a característica majoritária dos grupos mobilizados. Tenho convicção de que a própria polícia seria capaz de realizar essa diferenciação, detendo eventuais agressores sem precisar atacar de forma generalizada os ativistas.

Eu estive nos arredores do Mané Garrincha, como repórter, cobrindo as manifestações que ali ocorreram durante a abertura da Copa das Confederações. Vi uma ação irracional da polícia. Com base num decreto inconstitucional, que proíbe protestos no perímetro do estádio, lançamentos de bombas de gás e disparos de balas de borracha foram realizados indiscriminadamente. Bastava qualquer aglomeração pacífica de 50 pessoas portando cartazes e gritando palavras de ordem para que a tropa de choque expusesse toda a sua truculência. Felizmente, na segunda-feira subsequente, as manifestações foram pacíficas e a polícia agiu como dela se espera, mesmo com os ativistas ocupando o teto do Congresso num movimento simbólico e democrático.

É utopia achar que um estado pode viver sem polícia, como sugerem alguns manifestantes. No entanto, é nítida a necessidade de uma reforma profunda nas bases da corporação. Nas redes sociais, já circulam mensagens de policiais anônimos e até um vídeo, no qual há críticas aos oficiais superiores, que despejam suas ordens para atacar cidadãos pacíficos.

A impressão que fica é que há um nítido problema de formação humanista nestes profissionais que muitas vezes não compreendem de forma clara qual é o seu papel. A baixa remuneração, aliada a uma cultura do confronto, leva à atração de profissionais de perfis violentos que pouco exercitam a reflexão racional sobre o seu próprio trabalho. Obviamente, como bem demonstram as mensagens anônimas nas redes sociais, não se trata de uma generalização, dado que há policiais que, felizmente, destoam da regra.

O que me parece que falta é um curso superior específico de Segurança Pública, que englobe um forte componente de sociologia e filosofia em seus currículos. Uma graduação obrigatória para ingressar na corporação e que seja ofertado pelas universidades. Os cursos ministrados institucionalmente pela própria Polícia correm o risco de terem conteúdos viciados, para perpetuar a atual cultura da truculência policial.

Lamentáveis declarações

É triste ouvir do Aldo Rebelo, político que já realizou tantas façanhas dignas de admiração, a frase que estampou jornais desta segunda: "Quem achar que pode tentar impedir a realização dos jogos enfrentará a determinação do Estado". Ainda que este possa ser o sonho de algum manifestante, não houve nas ações populares, até o momento, nenhuma iniciativa no sentido de tentar criar obstáculos para a realização das partidas. A declaração num tom de confronto e sem contribuir para o ambiente democrático assusta ao sair da boca de alguém que traz no currículo a luta contra a ditadura militar.

Na pasta do Ministério dos Esportes, Aldo parece perdido e com pouco a fazer, já que o evento é mais da Fifa do que do próprio Governo. Talvez por isso, tenha se sentido desconfortável para responder a sérios questionamentos de ordem administrativa na realização da Copa. No programa Roda Viva, da TV Cultura, questionado sobre os gastos exorbitantes na construção de estádios que posteriormente não terão serventia, o ministro rebateu acusando o jornalista da ESPN de ter simpatia por um clube italiano. Mas o que uma coisa tem a ver com a outra?

Também lamentável foi a declaração de Agnelo Queiroz, governador do Distrito Federal, que disse que os manifestantes na abertura da Copa das Confederações eram pagos pela oposição. Será que os 10 mil que estiveram presentes ontem em frente ao Congresso Nacional também receberam dinheiro? Tentar deslegitimar as manifestações é a pior maneira que os políticos encontram para superar a pressão. Já é hora de ouvir as vozes de rua e, de forma humilde, tentar entender o que elas clamam, para tentar dar uma resposta de estadista.

O desafio dos ativistas

Muitos dos que foram às ruas o fizeram pela primeira vez. E daí surgiram jargões como "O Brasil acordou", e variações criativas circularam nas redes sociais: "Brasil muda status de deitado eternamente em berço esplêndido para verás que um filho teu não foge à luta". Militantes cotidianos dos movimentos sociais já responderam no ambiente virtual, lembrando que há brasileiros acordados desde sempre.

A celeuma entre novos e velhos ativistas se traduzirá numa questão chave para o futuro das manifestações. Eventuais conquistas dependerão dessa articulação. A juventude dos partidos políticos não pode mais ter a pretensão, como teve durante muito tempo, de liderar protestos. Não há mais espaços oportunistas para que grupos cheguem de última hora reivindicando falar em nome do movimento. Qualquer iniciativa nesse sentido receberá a imediata vaia do conjunto dos manifestantes. O movimento é difuso e as pautas também. Portanto, o papel de cada grupo ideológico, partidarizado ou não, é disputar os rumos políticos com base no debate de ideias.

Embora a tríade inicial - pela melhoria e redução do preço do transporte público, contra os gastos exorbitantes da Copa do Mundo, e contra a repressão policial - continue a ser o eixo das manifestações, um novo conjunto de pautas vão surgindo. Algumas mais genéricas, outras mais específicas. Em Brasília, as mais concretas presentes em cartazes e palavras de ordem eram pela não aprovação da PEC 37 e pela destituição de Marco Feliciano da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Como provavelmente aconteceu nas demais capitais, havia também o jargão genérico "mais saúde e educação e menos corrupção".

  • Entenda o que é a PEC 37
  • Em meio a tantos gritos, alguns manifestantes chamavam a presidenta Dilma Roussef de corrupta e pediam sua renúncia. É legítimo que aconteça, dado a própria natureza da manifestação. Mas esses gritos são prato cheio para que políticos e imprensa conservadora anunciem o apoio ao movimento. O senador Aécio Neves ressaltou o descontentamento do povo com o Governo Federal, numa clara jogada de marketing visando as eleições de 2014.

    Como eleitor de Lula e Dilma e entusiasta dos programas sociais que desenvolveram este país, não vejo alternativa mais progressista colocada até o momento para 2014. Marina Silva e muito menos Aécio Neves e Serra não representam a possibilidade de avanços das pautas inicialmente propostas. Pelo contrário, representam o retrocesso das conquistas, o fim dos programas sociais e menos verba pública para saúde e educação.

    O grande desafio é fazer o que muitos analistas políticos progressistas já apontavam em 2002, quando Lula foi eleito com uma base de apoio diversificada: o povo deve estar nas ruas para contrabalancear o peso do lobby das grandes empresas e lembrar cotidianamente a este Governo o compromisso que ele assumiu com as políticas sociais.

    Diante disso, o grande desafio é: uma vez que não há lideranças, como estabelecer uma mesa de negociação com o Governo para apresentar as pautas? E que pautas seriam essas? Não há respostas prontas. O novo está sendo construído. O recado está sendo dado. Em São Paulo, o governador Alckmin, acuado, mudou o discurso e proibiu o uso de bala de borracha pela polícia. Agora só pode spray de pimenta e bomba de gás. Parece piada pronta, mas querendo ou não, é um avanço. Também no noticiário já pipocam intensões das Prefeituras de reduzir, em 5 ou 10 centavos, os preços das passagens de ônibus. Infelizmente o reajuste aconteceria desonerando os impostos e não reduzindo o lucro das empresas de transporte, como deveria ser. E mais: se o transporte é uma concessão pública, porque não há um Portal da Transparência expondo as finanças  e os lucros das empresas responsáveis?

    Os avanços ainda são tímidos. As manifestações têm um potencial acima disso. Resta saber se a articulação entre as experientes lideranças de movimentos sociais e os novos indignados que surgem de mobilização nas redes terá condições de render frutos propositivos, capaz de orientar o Governo no atendimento a estas demandas. Pelo lado do Governo, falta sensibilidade de saber ouvir e, mais do que isso, saber atender: aproximar a agenda governamental da agenda popular. É por nós que eles estão lá.

     

    comments powered by Disqus

     

    O EDITOR


    Léo Rodrigues

    Repórter da Agência Brasil, formado em Comunicação Social pela UFMG em 2010. Ex-jornalista da TV Brasil e do Portal EBC, onde também atuou como editor de esportes. Diretor de documentários cujo foco de interesse é a cultura popular, entre eles os longas "Aboiador de Violas" e "Pra fazer carnaval mais uma vez". Saiba mais

     

    O BLOG


    O trabalho do jornalista nunca é isento. Trata-se de um exercício constante de escolhas. Para onde apontar a lupa? De que ângulo posicionaremos a lupa? Este espaço surge a partir do interesse do editor em concentrar o seu acervo de produções jornalísticas e, ao mesmo tempo, propor coberturas e reflexões sobre comunicação, sociedade, cultura e esporte. Entenda melhor a proposta

     

    QUEM É O EDITOR | PROPOSTA DO BLOG | MAPA DO BLOG | AVISE ERROS | CONTATO

    Alguns direitos reservados
    Todo o conteúdo deste site está publicado sob a Licença Creative Commons Atribuição 3.0 Brasil exceto quando especificado em contrário.
    Permitida a cópia, redistribuição e alterações desde que se conceda os devidos créditos e mencione caso alguma adaptação tenha sido realizada.
    Saiba mais como funciona a Licença Creative Commons Atribuição 3.0 Brasil