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Historiadores traduzem autobiografia de ex-escravo que viveu no Brasil

 
Produção: Léo Rodrigues / Reportagem: Bruno Cruz | 23/12/2014 Notícia veiculada pela TV Brasil / Repórter Brasil

Baquaqua trabalhou como escravo em Pernambuco e no Rio de Janeiro, antes de conseguir escapar em Nova Iorque. Deixou um relato de valor inestimável, já que não há no Brasil um acervo de escritos autobiográficos deixados pelos escravos.

Capa da versão original do livro de Baquaqua

Historiadores estão traduzindo um dos poucos textos autobiográficos escritos por um ex-escravo que viveu no Brasil. Mahommah Gardo Baquaqua nasceu no norte da África no início do século XIX e trabalhou no país. No ano de 1847, em Nova Iorque, conseguiu fugir e se livrar da escravidão. Em 1854, quando os EUA viviam o auge do debate abolicionista, ele lançou em Detroit o livro autobiográfico An interesting narrative: Biography of Mahommah Gardo Baquaqua ("Uma interessante narrativa: biografia de Mahommah Gardo Baquaqua", em tradução livre).

A obra traz relatos de suas vivências no Brasil e impressiona pela riqueza inédita de detalhes, o que não se verifica nos outros poucos relatos conhecidos de escravos que trabalharam nas terras tupiniquins. Baquaqua era até recentemente desconhecido do público brasileiro. Agora os historiadores Bruno Véras e Nielson Bezerra, com o apoio do Ministério da Cultura e do Consulado do Canadá, estão trabalhando em uma versão em português da autobiografia, que deve ser concluída ao final de 2015. Antes, a única tradução para nossa língua havia sido produzida por Robert Krueger, pesquisador dos EUA, mas sua versão possui muitas imprecisões nas notas e até no título.

O conteúdo do livro joga por terra a velha ideia de escravos submissos, que só apanhavam e trabalhavam. Baquaqua se mostra inteligente e empreendedor, e alcança a liberdade pelo seu próprio esforço. O valor dele para a historiografia brasileira é incalculável, já que não há no país um acervo de escritos autobiográficos deixados pelos escravos. Nos EUA e na Inglaterra, existem vários desses textos, que tinham uma função abolicionista.

Trajetória

A trajetória de Baquaqua começa nos anos 1820, em Dijougou, onde hoje é o norte do Benim. Ele era filho de um proeminente comerciante e estudou em uma escola islâmica, adquirindo conhecimentos de leitura e de matemática. Atuando no comércio de grãos e outras especiarias em uma área de conflito, acabou preso e feito escravo pelo Império Aashanti, que disputava com o Califado de Socoto o poder político e econômico, inclusive para traficar escravos com os europeus. Chegou a ser comprado e libertado pelo irmão, mas foi novamente preso e levado como escravo para a cidade litorânea de Uidá, de onde partiu para o Novo Mundo. Ela relata os horrores da viagem até desembarcar em Pernambuco em 1845.

Trabalhando como padeiro numa lavoura em Olinda logo passou a conviver com os maus tratos e entregou-se às bebidas, sendo revendido para um comerciante do Rio de Janeiro. Com seus conhecimentos matemáticos, trabalhou em um navio voltado para o comércio de charque entre a capital e o Rio Grande do Sul. Ao levar uma encomenda de café para Nova Iorque conseguiu escapar e depois fugiu para o Haiti com a ajuda de abolicionistas. Daí se engajou junto a eles e anos mais tarde publicava seu livro em Detroit com intuito de arrecadar fundos para a causa.

- Confira a matéria da TV Brasil, com produção de Léo Rodrigues e reportagem de Bruno Cruz:

Frases do livro de Baquaqua

"Que aqueles indivíduos humanitários que são a favor da escravidão se coloquem no lugar do escravo no porão barulhento de um navio negreiro, apenas por uma viagem da África à América, sem sequer experimentar mais que isso dos horrores da escravidão: se não saírem abolicionistas convictos, então não tenho mais nada a dizer a favor da abolição"

"Fomos arremessados, nus, porão adentro, os homens apinhados de um lado, e as mulheres de outro. O porão era tão baixo que não podíamos ficar de pé, éramos obrigados a nos agachar ou nos sentar no chão. Noite e dia eram iguais para nós, o sono nos sendo negado devido ao confinamento de nossos corpos."

"Houve um pobre companheiro que ficou tão desesperado pela sede que tentou apanhar a faca do homem que nos trazia água. Foi levado ao convés, e eu nunca mais soube o que lhe aconteceu. Suponho que tenha sido jogado ao mar".

"Meus companheiros não eram tão constantes quanto eu, sendo muito dados à bebida e, por isso, eram menos rentáveis para o senhor. Aproveitei disso para procurar elevar-me em sua opinião, sendo muito prestativo e obediente, mas tudo em vão; fizesse o que fizesse, descobri que servia a um tirano e nada parecia satisfazê-lo. Então comecei a beber como os outros e, assim, éramos todos da mesma laia, mau senhor, maus escravos."

 

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O EDITOR


Léo Rodrigues

Repórter da Agência Brasil, formado em Comunicação Social pela UFMG em 2010. Ex-jornalista da TV Brasil e do Portal EBC, onde também atuou como editor de esportes. Diretor de documentários cujo foco de interesse é a cultura popular, entre eles os longas "Aboiador de Violas" e "Pra fazer carnaval mais uma vez". Saiba mais

 

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